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À serviço da infância

- Isabela Rosa -


“Criar o espaço para fluir o brincar é como preparar o corpo para a alma brincante.”

Adriana Klisys¹



Proponho uma reflexão: feche os olhos e pense em uma brincadeira. Talvez tenha vindo à mente a pipa, o pega-pega, pega-vareta, pique-esconde, bolinhas de sabão, poça de lama, pedrinhas no chão, polícia e ladrão, vivo ou morto, faz de conta, casinha e pião. Ou até mesmo o simples pular, correr, dançar, se movimentar até cansar... Para muitos, tais brincadeiras fazem parte de um cenário distante - quase que improvável - em tempos de imersão tecnológica e dias cada mais curtos e cheios de compromissos. Mas será que elas não existem mais, esquecidas com o decorrer dos anos? Ou ainda existem no cotidiano infantil? E será que a criança está, de fato, deixando de brincar?


Mas há uma discussão que antecede a questão do brincar: a da infância. E engana-se quem pensa que o conceito sempre existiu. Foi preciso séculos para que a criança fosse vista como um ser social, merecendo respeito e possuindo características e necessidades próprias para cada fase de seu desenvolvimento.

No âmbito das políticas públicas, o século XX avançou na tentativa de garantir por lei o acesso à educação, à alimentação saudável, moradia, ao descanso e lazer, à participação de atividades culturais e claro, ao brincar! Sim, o que antes era vista apenas como uma atividade lúdica da criança, parte do imaginário infantil, torna-se algo sério, incluída na Convenção dos Direitos da Criança das Nações Unidas (artigo 31). No Brasil, o brincar também está contemplado em importantes documentos como Constituição Federal (artigo 227), no Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA (artigos 4º e 16º) e também nas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (2009).

Mas enquanto Estados e Organizações da Sociedade Civil avançam nas políticas públicas, na tentativa de democratizar o acesso ao brincar, nossos sistemas econômicos e sociais nos trazem barreiras e desafios para a promoção dos direitos das crianças.

A supervalorização do consumo e do trabalho, em detrimento ao ócio e a sustentabilidade, tem mexido com as estruturas sociais tão rapidamente que muitos de nós ainda não despertaram para os perigos da vida moderna. Soma-se a isso a exploração do trabalho infantil, preconceitos sofrido em relação à gênero e etnias, escolas cada vez menos reflexivas e engessadas no currículo e o reconhecimento da criança como um potente consumidor, obrigando os meios de comunicação a conversar e entender melhor esse público. Resultado: hoje sofremos com altos índices de crianças obesas, altamente expostas às telas, perdendo seus espaços para o brincar, entrando precocemente na cultura adulta e pasmem, sendo medicadas antes mesmo da idade escolar.

Diante desse triste cenário, o brincar, que poderia ser entendido pela família, escolas, hospitais e a até mesmo a mídia como inerente à infância, vem sendo deixado de lado, tratado como de menor importância para formação cognitiva e social da criança. Um dos fatores desse “esquecimento”, arrisco a dizer, pode ser um sintoma dessa ideia coletiva de que adulto não brinca, e sendo ele o responsável por pensar políticas (além da tarefa básica de sobreviver), internaliza de vez sua criança interior, diminuindo assim as chances do brincar se efetivar como direito garantido.

Para tentar minimizar esse dano social – que será mais sentido (para não dizer fortalecido) daqui a alguns anos – é que surge a necessidade de um profissional que atue como um animador e facilitador das oportunidades lúdicas para as crianças. O adulto que deixa a criança brincar. E que não apenas brinque, mas também defenda do direito do brincar em diferentes espaços (família, escola, hospitais, praças, museus, meios de comunicação); atuando em diferentes redes, organizando-se com outros atores, e que participe a acompanhe as decisões da comunidade.

O Agente do Brincar precisa estar atento à sua volta para encontrar a possibilidade do brincar nos mais diversos tipos de materiais disponíveis (elementos da natureza, lixos recicláveis, etc.), mediando conflitos quando necessário e fomentando o diálogo, sem que, com isso, seja ele o protagonista do brincar.



Pelo contrário, o Agente precisa garantir que em todas as oportunidades tenha a criança como protagonista, pois é no brincar que ela irá se empoderar, criará autonomia, lidará com as frustrações e aprenderá regras de convivência. E mesmo diante das tecnologias, não tê-las como inimigas, mas como aliadas. Como visto, não há limite para a criatividade, desde que o foco seja a garantia e defesa do brincar.

A esperança é que, ao inserir esse profissional nesses espaços em potencial, a sociedade perceba o quão importante são os investimentos sociais, políticos e econômicos para a área da infância. Uma infância saudável, gera adultos mais conscientes, construindo um mundo mais humano, com crianças tendo tempo de serem crianças. Afinal, “criança não trabalha, criança dá trabalho”. E que trabalho bom!




¹ Citação do livro “Quer jogar?”, p. 104.

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