A criança e a escola

- Marilena Flores Martins -



"Você pode equilibrar melhor sua vida se participar de algumas atividades por puro divertimento, mais do que daquelas que imagina que serão um diferencial para conseguir emprego. As relações humanas que você construir com seus colegas podem ter uma influência maior em sua vida futura do que o número de cursos que você fará.”

- Carl Honoré (Filósofo escocês).


As estatísticas apontam que 3,8 milhões de crianças e adolescentes brasileiros em todo o País estão fora da escola. O perfil dos excluídos mostra que a maioria, em qualquer faixa etária, é formada por negros, mora no campo, é pobre ou vem de famílias em que os pais tiveram pouca ou nenhuma escolaridade. As crianças e os jovens de segmentos específicos como: quilombolas, indígenas, com deficiência ou em conflito com a lei, também são grandes vítimas da exclusão.

Por essas razões, vencer os desafios não é fácil. Grande parte (45%) dos 3,8 milhões de crianças e adolescentes que estão fora da escola tem entre 15 e 17 anos. Eles representam 1,7 milhão de pessoas. E, especialmente para eles, “a escola muitas vezes não faz sentido”.(IBGE-2010). Podemos avaliar que essa exclusão certamente começou muito antes e demonstra que as competências necessárias para o aprendizado não foram desenvolvidas no tempo e espaço adequados.

Tanto a educação quanto o olhar da sociedade sobre as crianças, suas necessidades e direitos não têm caminhado no ritmo desejado. Ainda nos guiamos por muitos paradigmas ultrapassados tais como: “criança pequena não sabe de nada”; “ para a criança pequena é só preciso cuidar da saúde e da alimentação”; “criança precisa de disciplina, precisa saber quem é que manda”, “ brincar é perda de tempo”, “quando brincam, ficam fora de controle”.

Essa nova concepção de criança, bem como do seu atendimento desde muito cedo, na educação infantil, abre espaço para o debate em relação a deixar para trás, por parte das instituições, a prática do acolhimento apenas pela ótica do cuidado e passa a abranger o recebimento da criança sob a ótica da educação. Pesquisas realizadas pela Universidade de São Paulo (USP) e por pesquisadores da Universidade de Londres e de Oxford chegaram a resultados semelhantes, ou seja, concluíram que a freqüência precoce às creches e pré-escolas não é, por si só, condição de sucesso escolar futuro.

Educar uma criança para a liberdade e a autonomia, fatores determinantes para o sucesso de cada um, além de oferecer-lhe as condições adequadas, implica em respeitar os seus tempos e necessidades, concedendo-lhe voz e direito de se manifestar tanto na concordância quanto na discordância, mesmo ainda bem pequena. Isto não significa “deixar fazer o que quer”. É preciso repensar na sua condição de sujeito de direitos e não de objeto da ação, que deve ser ouvido, olhado com respeito, ter a responsabilidade de decidir coisas com as quais já pode arcar, ser compreendido como um ser humano integral, com direitos a serem atendidos por todos os adultos.

A qualidade da educação infantil é que faz a diferença na vida das crianças, condicionando seu bom desempenho escolar e comportamental nos anos seguintes. Mais importante: crianças que frequentaram pré-escolas de baixa qualidade não apresentavam ganho algum, se comparadas àquelas que sequer chegaram a frequentar escolas na primeira infância.

Por outro lado, existe ainda uma nova corrente de educadores nacionais e internacionais, que defende que a escola deve oferecer às crianças, experiências de felicidade. A professora Ariana Cosme, da Universidade do Porto (Portugal) e especialista nas áreas da gestão e organização do trabalho pedagógico e da intervenção com crianças e jovens em risco de insucesso escolar, lembra que: “Mais do que trazer alegria, as instituições devem fazer com que os alunos saiam da zona de conforto, devendo as escolas ser espaços de felicidade para os alunos que as freqüentam”.

O educador Loris Malaguzzi (Reggio Emiglia) no seu artigo: “Sua imagem da Criança: Onde o ensino começa”, enfatiza:


“A qualidade e a quantidade de relações entre vocês como adultos e educadores também reflete a sua imagem da criança. Crianças são muito sensíveis e podem captar rapidamente o que ocorre com os adultos do seu mundo. Elas compreendem quando os adultos estão trabalhando juntos de maneira verdadeiramente colaborativa ou se eles estão separados de alguma forma uns dos outros, vivenciando suas experiências como se fossem do âmbito privado, com muito pouca interação."


A educação, inclusive a infantil, deve ter por objetivo principal formar cidadãos críticos e criativos, com condições para inventar e ser capazes de construir, cada vez mais, novos conhecimentos. Neste sentido, a pesquisadora e educadora Ana Teberosky, da Universidade de Barcelona, lembra que na escola “é preciso acabar com a oposição entre brincadeira e aprendizado. O jogo do faz-de-conta, de caráter simbólico, contribui para a construção do conhecimento”. No espaço escolar as crianças aprendem com outras crianças e com outros adultos, que não são o pai e a mãe. Ao mesmo tempo, existe a possibilidade de aprendizagem compartilhada, com diversas crianças ao mesmo tempo. É bem diferente de aprender sozinho. Nesse processo o brincar tem papel preponderante para a criança:


· Desenvolver a criatividade, a sociabilidade e as inteligências múltiplas;

· Ter oportunidade para aprender a jogar e a participar ativamente;

· Enriquecer o relacionamento com outros alunos;

· Reforçar os conteúdos já aprendidos;

· Adquirir novas habilidades;

· Aprender a lidar com os resultados e com as frustrações;

· Aceitar e construir regras;

· Respeitar as regras estabelecidas;

· Fazer suas próprias descobertas;

· Desenvolver e enriquecer sua personalidade com mais empatia;

· Favorecer a autoconfiança e a concentração.



Todas essas reflexões nos levam a concluir que, ao lado da mudança de paradigmas culturais, ação legislativa, gestão adequada dos recursos, a formação dos professores e educadores, que trabalham diretamente com as crianças, e o currículo adotado são fatores que devem ser considerados quando se trata da qualidade do ensino, ao lado da infra- estrutura da instituição – que inclui tanto o prédio como o mobiliário, os brinquedos e materiais pedagógicos – e a relação com as famílias e a comunidade.


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