Buscar

MEMÓRIAS DO BRINCAR

- Débora Grazianne -




Ao refletir sobre minhas memórias, tentarei em algumas páginas me reportar quanto a minha vivência sobre o brincar antes de conhecer o curso Agentes do brincar. A minha infância foi bastante proveitosa e hoje percebo que o brincar esteve presente o tempo inteiro, em todos os momentos.

Uma parte da minha infância vivi no estado de Sergipe, exatamente até os 11 anos de idade. Neste período, durante a semana permanecia em casa na cidade de Aracaju e em alguns finais de semana e época de férias o destino era o sítio de meus avós maternos José e Neusa no Povoado de nome “Pau Alto”, no município de Muribeca também em Sergipe.

São inúmeros momentos maravilhosos que levo até hoje em minhas memórias. Estas memórias em que hoje percebo e valorizo muito, porque brinquei e até hoje brinco, diferente de muitas crianças em que tem poucas oportunidades de épocas felizes como a minha, apesar das adversidades.

A escola onde estudei em Aracaju, frequentei desde a Pré-Escola até a quinta série, atual sexto ano. Participava de diversas atividades, lembro de momentos em que brinquei muito na rua, em casa, no sítio dos meus avós. Na escola também brincava de pega- pega, queimada, de gangorra, gira gira, participava de campeonatos, corais, exposições, dentre outras. Lembro-me


de que o meu brinquedo favorito era um cachorro de pelúcia, em que amarrava um cordão e o levava para todo lugar. Além do hábito de cheirar lençol e também querer carregá-lo onde estivesse.




As brincadeiras em casa geralmente eram com minhas duas irmãs, Grazielle e Andreza, além de vizinhas mais próximas. Brincávamos de casinha, com bonecas, de fazer compras no mercado onde o papel de bala era o dinheiro, gostava de brincar de missa, onde pegávamos pedaços de pão como se fosse a hóstia e colocava na boca de quem estava ali brincando, de ser professora, médica, de aulas de ginásticas e quem sempre era a professora? Eu. E hoje de fato vejo-me, no que vivi no passado, pois sou graduada em Pedagogia.



Há todo tempo aproveitei a minha infância. Inclusive até inventava algumas brincadeiras com minhas irmãs ou quem estivesse no momento. As brincadeiras eram pensadas

e criadas a partir do que estava ali presente e até mesmo do que assistíamos na tv ou alguma situação do cotidiano. Assistia na tv, os episódios de Chaves, Tv Colosso, Castelo Rá tim Bum, Simpsons, Sítio do pica Pau Amarelo, Família Dinossauro, Família Adams e não podia faltar Xuxa, Eliana e Balão mágico. Puxa quanto atração, né?

Quando não estava brincando dentro de casa, geralmente na garagem, estava na rua. As brincadeiras na rua sempre me marcou, porque a família esteve muito presente e unida. Além da participação dos vizinhos, incluindo crianças e adultos. E isso é o que fazia as brincadeiras serem proveitosas, a inclusão de todos que quisessem brincar.

Sempre ao perceber que o sol estava se pondo aos finais da tarde, brincava na rua, seja pedalando a bicicleta pelas ruas do bairro, brincando de amarelinha, cabo de guerra, pembarra, queimada, bola, elástico, bolinha de gude, verdade ou desafio, imitando personagens da tv, bambolê este que foi um brinquedo da moda e que foi lançado na tv. Mas, para brincar não tinha hora exata, embora aos finais da tarde e início da noite eram mais frescos devido ao calor.

Quando viajava para o sitio de meus avós era muita diversão, esta que já começava na saída de casa. Geralmente a viagem era de ônibus com minha mãe Gildete e irmãs, pois meu pai não gostava de ir, mesmo com automóvel em casa, este que poderia facilitar e reduzir o tempo da nossa viagem. Durante a ida cantávamos, brincávamos de stop, contávamos carros e suas cores, leituras de placas para sabermos a localização, se estava muito longe e quanto tempo a mais iria demorar para chegarmos.


Chegando no povoado era uma festa só, descia do ônibus na pista (rodovia que liga um município a outro), chamava assim porque o povoado não possuía asfalto e nem calçamento (paralelepípedo). Andava um pouco até a casa de meus avós, este que já sabiam que a filha e netas estavam chegando, porque alguém já tinha ido avisar. E daí era só aproveitar todos os lugares possíveis.

Todos os momentos em que estávamos no sítio foram proveitosos e prazerosos, pois o brincar esteve presente o tempo inteiro, em todos os momentos. Era muita energia a se gastar... Subia no pé de goiabeira, colhia manga do pé e chupava, sempre visitava a plantação de milho (quando era época de colheita e as sementes que não crescia muito, colhia e as faziam de bonecas devido as cores dos “cabelos”), brincava de areia/ barro, montava a cavalo, alimentava e corria atrás das galinhas, andava de bicicleta, frequentava o curral onde estava os bois, vacas e cavalos, mesmo que de longe, quebrava castanha de caju para comer.


Por alguns anos meu tio que também residia no mesmo povoado que meus avós, recebeu uma proposta de trabalho para morar e cuidar de uma fazenda. Só que neste local não tinha energia elétrica e apenas permanecíamos até o final da tarde, pois o local era longe e a volta no escuro era perigosa. A brincadeira era criada no momento em que estava na fazenda, então pegava cipó e fazia como se estivesse tocando a boiada, brincava de esconde esconde, correr (quem chegava primeiro até o final da cerca), subia na cancela, brincava de pedrinhas (cinco marias). Recordo-me que minha avó Neusa, algumas vezes falava que iria pescar camarão na “Japaratuba”, rio que passa em uma parte mais distante do povoado e quando ela falava, já era motivo de querer acompanhá-la e tomar banho no rio. Algumas vezes, quando era período de colheita de mandioca e a safra era farta, meus avós alugava a casa de farinha. E aproveitava, porque a farinha era fresquinha, os beijus, pé de moleque (doce com massa de puba) eram bem fresquinhos e também a ajudava a descascar a mandioca, mas nada muito certinho.

Todo mês de fevereiro, tem uma festa no povoado, chamada de Festa das Cabacinhas. Essa festa é certeza de família reunida e casa cheia onde tios, tias, primos, primas se reúnem para participar deste momento, onde banhos de cabacinha é certo. Dependendo da força como é jogada, ela dói e preferia evitar de ir a praça, ponto de encontro central do povoado e local onde as cabacinheiras produziam nas calçadas. Mas, também tinha o parque que era montado e o divertimento era garantido. E os moradores do povoado que sempre gostaram de comprar e jogar cabacinhas em quem é de fora, ou seja não reside no povoado, portanto eu estava sempre na mira deles. As cabacinhas são produzidas de parafina derretida com água dentro.

No mês de outubro também acontecia a festa em comemoração ao dia das crianças, festa essa que a organização sempre partiu da minha família. Lembro-me que ensaiava as músicas dos irmãos Sandy e Junior e interpretava no palco da associação de moradores. Dançava com minhas irmãs e primas no palco, conduzia brincadeiras como estourar balão, distribuía as sacolinhas de doces, pipoca, cachorro quente e também participava das brincadeiras.

Sem esquecer da ida a feira no município vizinho de nome “Aquidabã”, onde até hoje moram minhas tias. Na feira tinha de tudo, andávamos nela do início ao fim, sempre acompanhando os adultos e a parte mais divertida era ao final, onde ganhava picolé (sorvete no palito) de meu avô José.

Aproveitei muito a minha infância morando em Sergipe, mas aos onze anos de idade devido a problemas familiares, minha mãe resolveu sair de casa, concluí o ano letivo morando na casa da minha tia Vera e no final deste mesmo ano, minha mãe recebeu uma proposta da minha tia Patrícia, que iria modificar a vida dela, a minha vida e das minhas irmãs para sempre. Viemos sem que meu pai soubesse, para o Estado em que recebe pessoas de todos os lugares mundo, “São Paulo".



E a partir daí a continuação da minha infância foi bem diferente da vivida em Sergipe. Onde o brincar na rua já não era o mesmo, os colegas não tinham ainda, a primeira casa onde morei em Jandira havia um córrego atrás e a diversão era observar se alguém entrou no banheiro ir até o muro e verificar o que sairia pelo cano, além de ficar observando o que passava pelo córrego. Certo dia vi que tinha um cachorro morto e a brincadeira estava dada, eu e minhas irmãs jogávamos pedras no animal e como furava saia um líquido preto. Olhávamos uma para cara da outra e falamos quase que na sequência: “Eca que nojo”. Mas a brincadeira continuava.


Mudamos para uma outra casa, do outro lado da rua onde não tinha córrego e o meu tio Ricardo, esposo da Patrícia, pegou emprestado o vídeo game do irmão dele e o entretenimento era jogar Mário Bross e também subir na laje, local mais quente da casa. A garagem desta casa possuía um púlpito, onde anteriormente foi local de uma igreja evangélica e também aproveitava e brincava de Igreja. Meus outros tios moravam no município vizinho, Barueri e outra diversão era ir de moto até lá, porque lá era mais legal que ficar em Jandira. Na casa da minha tia Tania brincava de bicicleta, pega pega e quando meu tio Clécio estava trabalhando em serviço noturno utilizávamos a sala da casa dele que era no andar debaixo da casa da minha tia Tânia para dançar com minha prima e irmãs. Lá em Jandira era um pouco maçante, e o lugar também bem perigoso, a rua nem asfalto possuía. E na escola que frequentei não participei de nenhum tipo de atividade.

Morando apenas oito meses em Jandira, mudei para Barueri onde a felicidade irradiava em meus olhos. Mas, a casa onde vivia ficava bem no alto e o bairro também diziam ser bem arriscado e as casas pareciam umas em cima das outras, sem acabamento, bem perigoso do que estava acostumada a ver em Sergipe. Nesta casa brinquei muito, tinha rede para se balançar, mas em compensação aparecia ratos, pois tinha um ferro velho na garagem da casa vizinha e acaba sempre correndo para fugir dos ratos que apareciam.

Poucos tempo depois, não me recordo ao certo, vim morar em um apartamento e algumas brincadeiras foram retornando e outras adentrando como queimada, bolinha de gude, pedalar bicicleta, andar de patins, skate, ficar olhando pela janela os carros e escolher qual seria o meu, entre outras. Inclusive na escola em que estudei da 6 série (atual sétimo ano) até o final do ensino médio, participava das atividades físicas em quadra e fiz parte de um grupo de alunas no campeonato interescolas no município de Itapevi em um jogo de vôlei.

Em muitos momentos, em inúmeras ocasiões as lembranças são maravilhosas e ao mesmo tempo marcantes, porque o importante é aproveitar o máximo seja criança ou adulto. Percebo o quanto brinquei em minha infância sem as responsabilidades, preocupações e cobranças que adultos tem.

Hoje adulta, tenho cinco sobrinhos, incentivo eles a brincarem em todos lugares e o máximo que puderem. Brinco com eles, pois esse meu olhar veio sendo modificado ao morar em São Paulo em que sempre repito que o brincar em muitos lugares são mais restrito e o que é mato/ areia/barro, em alguns locais está dando lugar ao asfalto ou concreto. Precisamos compreender que o brincar nos proporciona diversas possibilidades de expressão, desenvolvimento, além de nunca nos esquecermos de manter a criatividade, inovação, troca, exploração, descobertas.

48 visualizações

Contate-nos:

+55 11 3255-4563  - contato@ipabrasil.org

Rua José Armando Affonseca, 103 (antiga Itambé, 341) 

Higienópolis - São Paulo, SP - 01239-001

  • Facebook - White Circle
  • Instagram - White Circle
  • YouTube - White Circle

© 2016 IPA BRASIL. Criado por Andréia Luz via WIX.

ipa brasil, rede brincar, pelo direito de brincar, artigo 31 ONU, agentes do brincar, mediadores do brincar, agentes do brincar inclusivo, International Play Association, ipa world, direito da criança, estatuto da criança e do adolescente, marilena flores, janine dodge, ipa brasil