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MUSEUS E CRIANÇAS PEQUENAS

- Michelle Dantas Ferreirai* -


“Mergulhando mais fundo no „mar‟ da infância”


“Em sua mente passou tudo o que havia feito nesse dia e, dentro de si, já trazia as saudades de amanhã.”

Daniel Mundurukuiii O curso inicia com os olhos voltados para a instituição museu: Como são? O que guardam? Por que e para que foram criados? Qual o seu papel na sociedade? Para responder a tais perguntas acompanhamos uma análise dos museus que temos no Brasil e no mundo. Com isso percebemos que essas instituições apresentam-se fisicamente de forma diferente, possuem acervos diversos, estabelecem formas diferenciadas de comunicação com o público (tecnológica, sensorial, contemplação) e por isso a visitação a elas produz relações variadas entre os sujeitos, despertando díspares significações sensoriais e propiciando conexões entre conhecimento e afetividade.

É primordial, no entanto falarmos das protagonistas das crianças. Para isso iniciamos relembrando nossa infância, resgatando objetos que dela fizeram parte, definindo quais concepções temos acerca da criança que fomos e buscando em nossas memórias infantis experiências museais que tivemos. Através da proposta pudemos ampliar nossos horizontes e começar a pensar a respeito da percepção que temos de criança: Que criança é essa? Quais as concepções de criança presentes em nossa sociedade? A partir de fragmentos de textos retirados de cantigas populares e poesias pudemos ver que há várias perspectivas de criança coexistindo em nossa sociedade e que, ao longo da história, elas foram vistas de forma, às vezes até antagônica: como mini adultos, seres puros e frágeis, tabulas rasas, seres que “virão a ser” alguém e sujeitos autônomos e imaginativos. Célia e Isabel têm um olhar bem específico que corrobora com o que foi dito acima:


Historicamente a concepção de criança/infância vai mudando. Passando de um mundo onde não existem (Idade Média) para uma visão de ser puro, frágil e delicado (paparicação e moralização), outrora como produtos do meio (burguesia X proletariado) e hoje como seres complexos que têm características próprias e singulares.iv Dito isso, cabem então várias perguntas: O que crianças pequenas vão fazer no museu? Como recebê-las? Por que levá-las? Lugar de criança pequena é no museu? Há a possibilidade dos museus repensarem seus acervos para receber essas crianças? Quem é o protagonista da visita? Qual é o papel do professor nessa visita? E o do mediador? A criança é um ser brincante, imaginativo, criativo e corporal, por isso no trabalho com crianças pequenas não se pode perder de vista a ludicidade, fantasia do real, reiteração e interatividade – os quatro pilares que sustentam as infâncias (Sarmento, 2003).



Segundo o autor a criança é um ser fundamentalmente brincante, sendo nessas brincadeiras que aprende, capta o mundo e o transforma, (re)significando-o. Muitas vezes essa brincadeira é entremeada pelo “faz de conta” através do qual a criança consegue confrontar sua realidade, compreendendo-a e recriando-a e (re)caracterizar objetos e lugares que passam a assumir novas formas e funções. Isso acontece repetidas vezes no mundo infantil, que conta com um tempo diferente dos adultos por sua característica recursiva e imensurável e pela possibilidade de recorrência e repetição. Além disso, como nos diz Vygotsky (1996) é o olhar do outro que me constitui como sujeito, ou seja, é na troca com o outro – adulto e criança – e posteriormente consigo mesma que aprende sobre o mundo que a cerca, numa relação dialógica. O contato com diferentes linguagens, desde a Educação Infantil, propicia uma ampliação do repertório dessa criança, conferindo-lhe maior autonomia, espírito crítico e habilidades investigativas.

A inserção numa cultura letrada e em ambientes que proporcionem múltiplas vivencias, alargam os horizontes de tal forma que transformam e essas transformações farão parte da constituição desses sujeitos. As crianças, então, vão a museus para ampliar seu repertório, apoderar-se, experimentar novas situações, aprender e repensar esse aprendizado na troca com seus pares e com os adultos ali presentes. A Aprendizagem é afetamento, tornando-se um acontecimento estético por passar pelos sentidos, atravessar as emoções e estar presente nas relações. Por isso, esse deve ser um local de diversão, criatividade, ludicidade, interação, fantasia e ressignificação. “A Escola navegando junto” A escola também é um lugar de possibilidades. Arriscamos dizer que em muitos casos ela é o único lugar em que a criança tem reais chances de ter ao seu dispor uma infinidade de experiências sensoriais, investigativas, criativas, lúdicas, cognitivas, participativas, afetivas e o que mais couber na sua imaginação.

Sabemos, também, que muitas são as instituições escolares que não ofertam essas vivências às crianças, mas centrando nossa proposta de reflexão nessas escolas que realmente olham para os pequenos e buscam atender suas necessidades, é que acreditamos no abandono do discurso das impossibilidades – tão presente na fala dos educadores – e no enfrentamento das adversidades para proporcionar às crianças um contato mais próximo com os espaços não formais de conhecimento, como museus e centros culturais. Para que isso ocorra é essencial o reconhecimento prévio do espaço a ser visitado, a relação entre o que será visitado e os objetivos que se tem com essa visita, um minucioso planejamento dessa atividade, que pode e deve incluir momentos de interação entre a obra e os pequenos e/ou entre o educador do museu, o da turma e as crianças; complementando também com objetos que favoreçam a troca e a experimentação (fotos, cordas, filós, animais plásticos, papéis etc.), sem que sejam prejudiciais às obras. Há grande importância em partilhar com as crianças o que será feito, contando previamente aonde elas irão e podendo brincar com sua curiosidade a respeito do que verão.

O fundamental é que se mantenha um ar de magia e encantamento em torno da visita para que a expectativa desperte nelas a vontade de conhecer, de saber e de ser. Nesse momento do passeio, devemos ter em mente algumas questões primordiais como o protagonismo, ou seja, a visita é para as crianças, então são elas que estão no centro. Por isso o tempo delas – que como já dissemos, para a criança funciona diferente do adulto – deve ser respeitado. Há de se estabelecer um diálogo baseado não só na fala como na escuta – que deve, ainda, ser realmente atenta – e na ligação entre os participantes. Dessa relação dialógica, surgem os questionamentos, que podem partir tanto da criança quanto do adulto. No entanto, deve haver certo cuidado com as perguntas feitas, para que, por parte do educador, não torne a visita enfadonha e por parte das crianças, não as excite a ponto de não conseguirmos retomar. Outra coisa que não podemos esquecer, é que a criança necessita de movimento, principalmente as bem pequenas, pois elas aprendem com todo o corpo e por isso faz-se necessário a interação e a incorporação de recursos que irão atender a essa demanda, como por exemplo imitar o movimento de determinada escultura, ou representar a cena de um quadro.


Qual é a real relação que – mãe, educadora, arte-educadora, adulto que acompanha e/ou proporciona esse contato da criança com esses espaços – busco que essa criança tenha com o museu? Quais são os objetivos do passeio a essa determinada instituição? Que instituição é essa escolhida? Há uma relação íntima e pessoal com o museu? Responder a essas perguntas pode fazer toda a diferença no resultado final desse "passeio" e consequentemente, no imaginário infantil; mudando ou não a forma como essa criança verá, sentirá, perceberá e se relacionará com o museu. Museus são como pessoas, diversos, com personalidades distintas e as relações que serão estabelecidas dependerão muito da forma como você se relacionará com ele. Muitos são conservadores e reservados, avessos ao toque e a um contato tátil mais eminente – o que não impede a qualidade da relação, mas nos deixa sempre um pouquinho frustrados. Outros são mais abertos, permitem relações sensoriais e gostam disso, estimulando você a fazê-lo. Alguns são aventureiros e ecológicos. Há os muito simples, mas carregados de sentimentalidades e lembranças.

Temos, também os expansivos e suntuosos, que causam em um primeiro contato certo desconforto devido ao tamanho e magnitude. Existem os tecnológicos, os pequeninos, os independentes, os populares e os nada populares. Enfim, como as pessoas podem ser de muitos tipos, se apresentarem de vários modos e possuírem essências diferentes. Mas na verdade, também como as pessoas, são únicos e a relação que estabelecerão com cada ser que se relaciona com eles também será única e dependerá do quanto se está disponível para aquilo e como essa relação será conduzida. Mas no final, poderemos encontrar neles verdadeiros tesouros, porque as experiências vividas ficarão para sempre e com certeza nos afetarão enquanto pessoas, sejam elas boas ou ruins. A escola precisa fomentar encontros: dos adultos com as crianças, entre os pares, entre os adultos e sua criança interior, entre pessoas, artes, sentimentos, natureza e saberes. Acreditamos, portanto, na democratização da arte, como nos diz Canclini (2001) e no potencial que as instituições têm para isso. A boniteza da escola está em tudo aquilo que ela pode proporcionar. Proporcionar momentos fora da escola é possibilitar a legitimação desses sujeitos, que são detentores e produtores de cultura, abastecendo-lhes a memória e consequentemente, enriquecendo as narrativas. Os passeios então, se revestem de significados e importância, como nos coloca Stela Barbieri (2012):


“quando saímos com nossos alunos para [aulas passeio], podemos aproveitar todas as oportunidades como situações de ensino. Podemos expandir o lugar do entretenimento para o lugar da aprendizagem, lugar onde nós e nossos alunos podemos conhecer.”



A visitação a museus e centros culturais contribui não só para ampliar nas crianças, saberes e conhecimentos de diferentes naturezas, mas também para alargar seus padrões de referência e identidade, que farão parte desses indivíduos de forma plena e integral, uma vez que, sua contribuição não fica presa a momentos estanques, estando arraigada na constituição desses sujeitos que são cidadãos de direitos com pouca idade, mas muitos saberes, ativos de uma prática social, detentores e produtores de cultura, brincantes, imaginativos, criativos e corporais, sociais e protagonistas no processo de ensino-aprendizagem. A escola é responsável por isso! É nela que a maioria das crianças passam seus dias, vivem suas histórias, interagem com seus pares, desenvolvem-se. Mas ao invés de ampliar, querem reduzir; no lugar de enaltecer as singularidades, buscam enquadrar, formatar, separando realidade e fantasia; ciência e imaginação; razão e sonho; brincar e produzir; ler e escrever, como se essas dicotomias não fossem possíveis de coexistir no universo infantil. O papel da escola é fomentar, proporcionar experiências, e não distribuir um mar de informações que não fazem o menor sentido para as crianças, pois não estão veiculadas as suas práticas, nem lhes afetaram de alguma forma.


Afinal, são os museus espaços de magia e encantamento? Acreditamos que podem e devem ser, pois como foi visto, a criança reinventa lugares e objetos, burla momentos de autoridade e tensão com brinquedos ou sem eles – que nem sempre são os convencionais – para brincar; necessita da interação com o outro e com o mundo e constrói saberes a partir de suas vivências. No entanto necessita se sentir acolhida e pertencente ao lugar, por isso as relações estabelecidas nesse espaço farão toda a diferença na experiência que será proporcionada a essa criança, pois como nos diz Larrosa (2014): A experiência é algo que (nos) acontece e que às vezes treme, ou vibra, algo que nos faz pensar, algo que nos faz sofrer ou gozar, algo que luta pela expressão, e que às vezes, algumas vezes, quando cai em mãos de alguém capaz de dar forma a esse tremor, então, somente então, se converte em canto. E esse canto atravessa o tempo e o espaço.


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* Professora da Rede Municipal de Ensino do Rio de Janeiro há 12 anos, sendo destes mais da metade na Educação Infantil; graduanda em Pedagogia pela UERJ; membro do grupo FRESTAS que pesquisa a formação estética do professor de Educação Infantil pela UNIRIO e formadora no curso de Extensão também promovido por essa instituição que tem como título “Educação Infantil: Arte, Corpo e Natureza.


REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS


BARBIERI, Stela. Interações: onde está a arte na infância? São Paulo: Blucher, 2012.

BRASIL. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil. Parecer CNE/CEB Nº. 20/2009 e Resolução CNE/CEB Nº. 05/2009, Brasília/DF, 2009.

CANCLINI, Nestor. Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade. São Paulo: Edusp, 1998.

CORSINO, Patrícia. A brincadeira com as palavras e as palavras como brincadeira. In: CORSINO, Patrícia (org.). Educação Infantil: cotidiano e políticas. São Paulo: Autores Associados, 2012.

EDWARD, Carolyn; GANDINI, Lella; FORMAN, George. As cem linguagens da criança. Porto Alegre: Artes Médica, 1999.

ELIAS, Marisa Del Cioppo. Célestin Freinet – Uma pedagogia de atividade e cooperação. Petrópolis, RJ: vozes, 1997. FRANGELLA, Rita de Cássia Prazeres; GUEDES, Adrianne Ogêda. Bordando palavras, costurando memórias: práticas de formação-ação. In: KRAMER, Sonia; NUNES, Maria Fernanda; CARVALHO, Maria Cristina (orgs.). Educação Infantil: formação e responsabilidade. São Paulo: Papirus, 2013. FREIRE, Paulo. Cartas a Guiné-Bissau: registros de uma experiência em processo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977, 173 p. LARROSA, Jorge. Tremores: escritos sobre experiência. Belo Horizonte: Autêntica, 2014. NOGUEIRA, Maria Alice; NOGUEIRA, Claudio M. Martins. Bourdieu & a Educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2009. 3ª Ed. 128p. VYGOTSKY, Lev. Teoria e Método em Psicologia. São Paulo: Martim Fontes, 1996. WALLON, Henry. Origens do pensamento na criança. São Paulo: Manole, 1989. [figura 1] Revista Pais & Filhos. Disponível em: <https://www.facebook.com/paisefilhos/photos/a.262806389469.139534.141071304469/10152443202544470/?type=1&fref=nf> Acessado em: 18 de maio de 2014. [Figura 2] FERREIRA, Michelle. Arquivo pessoal. Centro Cultural da Caixa. agosto de 2014. [Figura 3] FERREIRA, Michelle. Arquivo pessoal. Casa Daros. 26/11/2013. [Figura 4] FERREIRA, Michelle. Arquivo pessoal. Centro Cultural Banco do Brasil. 16/08/2013. [Figura 5] FERREIRA, Michelle. Arquivo pessoal. Casa Daros. 26/11/2013.


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