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SERÁ QUE BRINCAR É IMPORTANTE?

LÚCIA BISSOTO MEDEIROS






Nasci no asfalto e paralelepípedos, sou bem urbana, de árvore só as três na calçada em frente de casa, uma enorme que ficava bem na esquina, mas sempre a olhava de baixo nunca me aventurei nas alturas. Meu universo era o chão, a calçada, o asfalto, joelho ralado e reralado. Pega pega, esconde esconde , bola, queima, corda, Mãe da rua, tudo pelas ruas tranquilas do Tatuapé. Não havia metrô, na rua mal passava carro e ônibus só na Celso Garcia.


Dentro de casa mais brincadeiras, faltou luz? Não tem problema, pega lampião, corre buscar a vela e lá vamos nós criar animais, alguns doces outros aterrorizantes, a mão era o poder da criação: cobra, jacaré, coelho, pássaros. O tempo passava calmamente na sombra bruxuleante das paredes, para mim, minhas três irmãs e meu pai. Ele, uma pessoa apegada às letras, tinha uma biblioteca no corredor de casa , alta, grande, cheinha de livros e enciclopédias: Barsa, Delta, Tesouro da Juventude (esse era bem legal! Perguntas e respostas bem interessantes), livros de capa marrom com romances consagrados, coleção do Monteiro Lobato, livros do Círculo do Livro e outros mais, mas o que eu mais gostava era da coleção de livros coloridos de capa dura com histórias infantis. Para mim a melhor de todas era a história da Corsa, achava a personagem linda !!!! Adorava desenhar e redesenhar as imagens daquele livro, aliás, não só daquele livro , mas de tudo, sempre gostei de desenhar, o que me levou a ser desenhista e ter a alegria de ser paga para desenhar 

Voltando à casa de antigamente, a noite minha mãe ficava na correria da organização da casa e nós , junto com meu pai, iniciávamos a brincadeira na cozinha. Canudinho de plástico, pedaços de papel e a competição começava para ver quem conseguia levar mais papéis de uma lado a outro da cozinha. Outras vezes era o Rouba Monte, castelo de cartas, dominó com baralho, escravos de Jó com caixas de fósforo. Outras noites , caixote na calçada, ele com seu cigarro e nós na rua a brincar na noite paulistana com alegria e sossego junto das crianças e jovens da vizinhança . Jogávamos queima, Mãe da Rua, Seu mestre mandou, barra manteiga, voley, corda e outras mais.

Nós seis morávamos com minha avó paterna, ela compunha o acervo musical de casa. Portuguesa, adorava cozinhar cantarolando.

Não faltava também as panelinhas, bonecas, comidinhas junto das amigas de minha irmã mais velha. Elas tinham uma casa completa! Meu sonho de consumo: armários, panelas, garfinhos, pratinhos, tudo miniatura, maravilhoso! A filha da Marina, cabelereira do bairro, tinha mais utensílios e nós nos divertíamos brincando às vezes na casa de uma, às vezes na casa de outra, mas o que me fascinava era o quintal do salão de beleza, para mim era um lugar mágico, adorava brincar lá.

Na casa das outras amigas também tinha algo mágico, mas era diferente, era a magia do teatro: ensaio, lençol, comida, roupas especiais. Nos degraus do quintal apresentávamos a peça ensaiada com direito a aplausos e frio na barriga, encantos das tardes de verão.



E o brincar, onde entra? Confesso que o brincar livre ainda me inquietava, o brincar direcionado para o aprendizado e o brincar livre na primeira infância tinha certeza da importância, mas quando vi as crianças e jovens no Projeto Âncora em alguns momentos andando livremente, correndo, sem um direcionamento me deixou curiosa, assim como nos intervalos das atividades escoteiras, as crianças corriam, pulavam, saiam da vista, isso me incomodava, será que não era melhor dar alguma atividade para eles?



No final do ano passado resolvi focar num novo caminho profissional. Sou designer têxtil e infelizmente essa área está muito depreciada; muita falta de ética, muita cópia e quase nenhuma criação, além disso, o objetivo final é o consumo, o instigar as pessoas a comprarem cada vez mais, a terem necessidade de mudar o guarda roupa a cada estação e isso me deixava cada vez mais insatisfeita então resolvi mudar de área, gosto muito das atividades junto aos jovens e crianças, então resolvi associar meu lado profissional ao educacional e desenvolver projetos junto a pessoas de vulnerabilidade social. Por orientação de um professor, iniciei em março deste ano trabalho voluntário numa ONG, lá dou aulas de artesanato para jovens. No mês de julho pediram ajuda para que os voluntários ficassem com as crianças. Foi feito uma programação, mas tiveram vários momentos sem atividade e eles começaram a brincar livremente, a jogar, a nos ensinar brincadeiras. Achei bem interessante, gostei da liberdade deles.



Nas aulas de evangelização procuro sempre instigar os jovens a buscarem as resposta, a refletirem, a procurarem ter autonomia, a escolherem as próprias atividades a terem liberdade nos estudos e de repente vejo isso no brincar! Algo despertou dentro de mim. Na mesma época, uma amiga me convidou a fazer o curso de Agentes do Brincar na ETEC, e para minha surpresa o curso foi de encontro à descoberta do brincar livre.

Um novo universo se abriu e aprendi que o brincar livre exercita a criatividade, faz com que a criança desenvolva sua capacidade de raciocínio, liderança, coletividade, respeito, disciplina, resiliência, a suportar frustação, decepção, tristeza.




Se todos tivessem essa certeza, muita coisa seria diferente. Os pais não ficariam preocupados que o filho de 5 ou 6 anos ainda não sabe ler, que a escola oferece muito tempo ocioso, que o filho não tem ainda a agenda cheia e pode ficar preguiçoso, que a escola não dá muita lição de casa, enfim, preocupações de quem se importa com a vida profissional e deixa de lado a preocupação principal, ensinar o filho a viver e a se conhecer.

Deixo abaixo algumas reflexões que vão de encontro a meu atual modo de pensar.


“A natureza – quer que as crianças sejam crianças antes de serem homens. Se quisermos perturbar essa ordem, produziremos frutos prematuros que não terão nem madureza nem sabor, e não tardarão a se corromper; teremos doutores infantis e crianças velhas. A infância tem maneiras de ver, de pensar, de sentir que lhe são próprias.”

(ROUSSEAU, 2004:76)

ROUSSEAU, Jean Jacques. Ensaios Pedagógicos. Bragança Paulista: Editora Comenius, 2004



Com certeza, a resposta à minha pergunta é SIM: Brincar é coisa séria

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