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Tornando a aula de História em brincadeira

SALLES, Jéssica Scheer


Neste artigo abordaremos como a introdução na aula de História de exercícios utilizando manifestações culturais, contribuirá para compreensão de perspectivas históricas. O ensino da história muito associado a memorização, prejudica a leitura crítica e compreensão sociocultural de entorno. Ao conectar a importância histórica e do brincar, possibilitaria uma aproximação e politização sobre ritmos e movimentos dentro das culturas brasileiras. Palavras-chaves:manifestações culturais; brincar; história.


A dança e a música vieram muito cedo em minha vida. Desde pequena estive em cursos de música e dança de uma forma informal, mas que foi ganhando espaços inimagináveis em minha vida. Apesar dos cursos serem de dança (ballet) e música clássica, eu tinha desde pequena uma apreço pelo samba, que não entendia o que tornava menos erudita, sendo que possui uma complexidade tanto em seu tocar e dançar. Mesmo cursando faculdade de História, o interesse por cultura popular foi alimentado com muito Le Goff, Jean-Claude Schmitt, Carlo Ginzburg, Laura de Mello e Souza, Peter Burke, Mário de Andrade e Câmera Cascudo. Além reconhecer na área patrimonial (Educação patrimonial, Patrimônio Imaterial, e afins) um campo de atuação. Desde de então, busco conhecer e participar de manifestações da “cultura popular”, das quais parcialmente foi reconhecida por órgãos, como IPHAN. Desta forma, eu venho propor o resgate das danças e músicas das culturas populares no ambiente escolar.


Diferente de minha história, os mestres de tradições populares não conheceram elas através de livros, artigos e cursos, mas através da transmissão oral e convívio com seus praticantes, que são os brincantes.

O termo brincante, segundo CANDUSSO (2010), surgiu no nordeste do Brasil como os artistas populares se reconhecem. A cultura popular, em certas manifestações populares se utiliza de múltiplas linguagens artísticas (desde a poesia até a dança) e eles que participam desta manifestação estão brincando. Segundo HORTA, GRUNBERG e MONTEIRO (1999), o contato com expressões culturais na educação patrimonial possibilita o reconhecimento, experienciar e valorizar heranças culturais difundindo novos conhecimentos, capacitando e permitindo criar a partir deste contato. Isto pode ser conectado com Freire (1989) que o brincar, na escola, deve incluir num projeto com objetivos educacionais e orientações para o professor de como abordar e desenvolver isto em sala. Nesta lógica do corpo, TIM GILL (2014) diz que através da movimentação do corpo as crianças aprendem melhor,o que permite que a dança seja não só nova compreensão do corpo e nesta necessidade de interagir com seu corpo e com os demais estudantes permitiria criar compreensão corporal, entendimento da dança e da narrativa que está presente neste ritmo e letra musical.

O contato da brincadeira pelas manifestações populares e folclóricas brasileiras despertará através dos movimentos, ritmos e cantos conhecimento sobre as culturas, crenças, narrativas de culturas que muitas vezes invisibilizadas nas apostilas e livros didáticos. Não só brincar com danças já existentes, mas construir narrativas corporais a partir deste cantos e entender porquê destes movimentos são para esta dança. O que vem por trás destas letras, ritmos, instrumentos e consciência corporal.

A escola, por vezes, fica enrijecida com seu poder disciplinar, que esquece de valorizar a brincadeira e criatividade das crianças. Ao negar a importância da brincadeira e de aprenderem brincando impossibilita a criatividade e desenvolvimento de soluções. Isto posso dizer, pois mudei muito de escolas e percebi que todas se importavam com decorar conteúdos relevantes para vestibular e silenciamento das expressões. Desta forma, não era necessário conhecer e entender o que seria para além do que as apostilas, ou livros didáticos falavam. Entretanto, como CHIMAMAMANDA NGOZI ADICHIE (2019), existe um perigo da história única, que prejudica o reconhecimento de si, das demais pessoas e das diferenças realidades. Além disto, demonstra como certas histórias são mais contadas e aceitas também controlada por interesse maior destacando sempre a relevância e o poder de um povo sobre outro, ou mesmo uma cultura sobre outra.

A partir da Constituição de 1988, nos artigos 215, 216 e 242, deu destaque a preocupação do ensino de História do Brasil contando a contribuições das culturas e etnias na formação do povo brasileiro, também com a preservação cultural material e imaterial das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras, e das de outros grupos participantes do processo civilizatório nacional. Porém apenas através da Lei 11.645/2008 tornou obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-brasileira e Indígena, o que repercute ainda não é trabalhado de forma unânime a História dos negros e indígenas nas escolas, e, muitas vezes, na universidade.


Se quando cursei de História da UNIFESP, quando realizei minha graduação achei que tive pouco contato com História dos negros no período colonial e imperial, na História do Brasil, e para além disto, tinha apenas uma disciplina que abordaria a História da África sem recortes de temporalidade até a atualidade. Ainda mais restrito era História dos indígenas abordados, de vez em quando durante a disciplina de História do Brasil Colônia. Imagina nas escolas, o que será valorizado na disciplina de História? Como os professores abordaram a diversidade de relatos históricos e como ampliaria o reconhecimento a representatividade e das suas Histórias, se precisam, muitas vezes, seguir o roteiro com tempo e recursos reduzidos?