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Lembranças de um Brincar

- Joze Suellen da Silva -



Puxando de minhas memórias, vejo que a lembranças do brincar nunca foi apagada, sempre tiveram vivas em minhas mentes, lembranças essa, de descobertas, de uma época que tudo era novo, e de perguntas que iriam surgir com o tempo, que gostaria de achar respostas, de um mundo novo que me cercava, de questões essas, que seriam respondidos ao longo da minha vida, e talvez algumas não acharia respostas.

Não lembro um só dia, quando iniciei no brincar, acho que sempre esteve presente no meu desenvolvimento, pois é assim que descobrimos, o mundo novo que nos cercam, e que agora fazemos parte. “Quando brinca criança prepara-se a vida, pois é através de sua atividade lúdica que ela vai tendo contato com o mundo físico e social, bem como vai compreendendo como são e como funcionam as coisas. Zanluchi (2005. P.89)”

Lembro-me, de quando eu brincava, não existia tempo, ou espaço, e nem preocupações, uma lembrança bem evidente, era que me transportava para outros lugares, ao mesmo tempo que estava atrás do meu prédio, em um segundo, me imaginava em uma floresta, onde poderia encontrar, coisas que meu imaginário me permitiria, bruxas, duendes, lobos, e por uns instantes a horta de um vizinho do meu prédio, cheios de árvores, já não existia, eram uma floresta imensa que juntos com meus amigos iremos viver uma aventura. E nessa brincadeira poderíamos ser mocinhas, vilãs, ter superpoderes ou até morrer e logo voltar a vida. Assim como relata Oliveira (2000, P.19) [...] O brincar por ser uma atividade livre que não inibe a fantasia[...].

Tinha um termo que usávamos muito em nossas brincadeiras, por exemplo, quando existia um vilão, que matava alguém, como na brincadeira de polícia e ladrão, em uma de nossas histórias, logo explicamos que era de “mentirinha”, pois já sabíamos que tirar a vida de alguém não eram algo bom, então usávamos essa expressão, para saber que não era de verdade, já tendo a noção do era certo ou errado, é assim que vamos desenvolvendo a percepção no mundo em que vivemos, atribuindo valores e atitudes durantes nossas brincadeiras.

Através do brincar, fui mãe a primeira vez, cuidando de minhas bonecas, aprendendo a ter responsabilidades, ao cuidar de uma bebê no meu imaginário.

Diz Oliveira (2000, P.19) “[...] Ao brincar de que é a mãe da boneca, por exemplo, a menina não apenas imita e se identifica com a figura materna, mas realmente vive intensamente a situação de poder gerar filhos e de ser uma mãe boa, forte e confiável”. Nas brincadeiras adquirir várias profissões, fui médica, feirante, policial, cantora, dançarina era o que mais gostava, e professora, essa quem nunca foi?


Segundo Cunha (2007, p.23) “Neste tipo de brincadeira a criança traduz o mundo dos adultos para a dimensão de suas possibilidades e necessidades, as crianças precisam vivenciar suas ideias em nível simbólico, para poderem compreender seu significado na vida real.”

Assim ao brincar com essas profissões, por exemplo de médico, como não gostava de injeção, essa profissão já tinha noção que não iria seguir, já de professora sim, mas só não sabia que seria na fase adulta, professora de Educação Física.

O brincar me possibilitou vivenciar as diversas possibilidades, como conhecer amigos que até hoje faz parte da minha vida, pessoas que conheci e hoje não tenho mais contato, mas nunca esqueci, aprender, o brincar abre as portas para compreender e saber viver no mundo que nos cercam. E não tem maneira melhor de aprender brincando. Assim como cita o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (1998) que diz:

"O Brincar é uma das atividades fundamentais para o desenvolvimento da identidade e da autonomia. Nas brincadeiras as crianças podem desenvolver algumas capacidades importantes, tais como a atenção, a imitação, a memória, a imaginação, além de amadurecer algumas capacidades de socialização, por meio da interação e da utilização e experimentação de regras e papéis sociais."



“Era uma vez

O dia em que todo dia era bom

Delicioso gosto e o bom gosto

Das nuvens serem feitas de algodão

Dava pra ser herói

No mesmo dia em que escolhia ser vilão

E acabava tudo em lanche, um banho quente

E talvez um arranhão.”




Na minha Infância, nada poderia me parar, a não ser, a hora de entrar, ao escutar minha mãe, chamando, está na hora de entrar, já anoitecia, e um dia irá se pôr, e tudo recomeçava, hora de brincar. Há um trecho de uma música, que simplifica o brincar, tornando tão real tudo que vivi a partir do brincar.


“Dava pra ver

A ingenuidade, a inocência cantando no tom

Milhões de mundos e universos tão reais

Quanto a nossa imaginação

Bastava um colo, um carinho

E o remédio era beijo e proteção

Tudo voltava a ser novo no outro dia

Sem muita preocupação”



Fase Adulta



Quando somos crianças, queremos crescer logo, para experimentar, coisas novas, que estão além dos muros de nossas casas, e comigo não foi diferente, e com o tempo a brincadeira foi ficando de lado, passando a adquirir mais responsabilidades e obrigações, mesmo sem querer o brincar se tornou escasso. Como se ele nunca tivesse feito parte do meu desenvolvimento, cadê aquele brincar que estava sempre presente, que simplesmente acontecia? Sumiu!!!!

Agora essa fase se torna mais difícil, pois o brincar ainda faz parte de mim, é igual a andar de bicicleta, quando aprendemos não esquecemos, mas agora o brincar está adormecido.



“É que a gente quer crescer

E, quando cresce, quer voltar do início

Porque um joelho ralado

Dói bem menos que um coração partido


É que a gente quer crescer

E, quando cresce, quer voltar do início

Porque um joelho ralado

Dói bem menos que um coração partido”




Mas infelizmente, crescemos, e não podemos voltar a ser criança, e tenho que continuar minha caminhada, e agora na fase adulta, com o brincar quase inexistente. Ao chegar na fase adulta, mesmo inconsciente, passamos a ter a ideia que os adultos não brincam, partindo da visão que temos com nossos pais, que nunca brincam com seus filhos, estando sempre sérios, como se brincar não fosse algo sério, é assim que muitos adultos pensam, quando chegam à fase adulta. Devemos pensar diferente “É no brincar e talvez apenas no brincar que a criança ou o adulto fruem na liberdade de criação”, “É no brincar, e somente no brincar, que o indivíduo, criança ou adulto, pode ser criativo e utilizar sua personalidade integral: e é somente sendo criativo que o indivíduo descobre o eu" (WINNICOTT, 1975, p. 79-80).


Ingressei no ano de 2012, no curso de licenciatura em Educação Física, na Instituição Educacionais do Estado de São Paulo- UNIESP, onde passei a ampliar meus conhecimentos, referente a área onde iria atuar. Minha atuação como professora, na busca algo novo, no processo de ensino e aprendizado de meus alunos, foi despertada quando teve que montar um projeto na escola de jogos e brincadeiras, então quis me aprofundar sobre estes dois temas, minha irmã fazia um curso na instituição “Parque da Juventude”, onde me indicou o curso de “Agente do Brincar”, na mesma instituição. E assim mais uma jornada a percorrer durante minha trajetória, e utilizar o brincar, descobrindo como “Promover e Facilitar o Brincar” em minhas atuações.



Promover e facilitar o Brincar


Começo esse texto com essa frase:


“Soubéssemos nós adultos preservar o brilho e o frescor

da brincadeira infantil, teríamos uma humanidade plena

de amor e fraternidade. Resta-nos, então, aprender com

as crianças”.

(Deheinzelin).




Freud (1908) sugere ao educador reconciliar-se com a criança que existe dentro de si, “não para ser novamente criança, mas para compreendê-la e, a partir disso, interagir com seus alunos – a criatividade subsiste na vida adulta”.

E partindo dessa reconciliação dessa criança que existia dentro de mim, e foi recordado através da criação deste texto, pude reviver o brincar. “o adulto que volta a brincar não se torna criança novamente, apenas ele convive, revive e resgata com prazer a alegria do brincar, por isso é importante o resgate desta ludicidade, a fim de que se possa transpor esta experiência para o campo da educação” (Santos, 1997, pág. 14).

Esse texto, juntamente com o curso, “Agentes do Brincar” me mostra o papel da importância do brincar, em nossa sociedade, fazendo um resgate, desse brincar, onde poderei introduzir no campo educacional, onde atuo, atingir nossas crianças, através de um “Brincar Livre”, irei “Promover e Facilitar o Brincar”.


A palavra “Promover e Facilitar o Brincar” fará parte desse percurso que irei desbravar sobre o brincar, partindo dessas palavras, percebo que começo a entender, como educadora [....] Não preciso ensinar a criança a brincar, pois é um ato que acontece espontaneamente, mas sim planejar e organizar situações para que as brincadeiras ocorram de maneira diversificada, propiciando às crianças a possibilidades e companheiros com quem brincar. Dessa maneira, poderão elaborar de forma pessoal e independente suas emoções, sentimentos, conhecimentos e regras sociais (RCNE, 1998, P.29).”

Como professora, poderei promover e facilitar o brincar, perante minha atuação com meus alunos, um brincar livre, de onde pude constatar que tive, e fez parte da minha vida, e não poderei deixar de lado, algo tão rico, um mecanismo facilitador, para aprender e crescer, descobrir. Mesmo que o brincar esteja escasso, poderei ao final desse curso, mostrar ao meus alunos, que mesmo que o mundo lá fora, para além dos muros de nossas casas, não seja tão bom, existem coisas muitas boas, o brincar é um facilitador para, imaginar, criar, aprender e nos permite viver. Assim como o trecho dessa música fala:



“Dá pra viver

Mesmo depois de descobrir que o mundo ficou mau

É só não permitir que a maldade do mundo

Te pareça normal

Pra não perder a magia de acreditar

Na felicidade real

E entender que ela mora no caminho

E não no final.”



É tão bom recordar uma época, onde o brincar, era somente um mecanismo para crescer e aprender, e hoje sei a importante para o desenvolvimentos de meus alunos, e na minha vida pessoal, repassando ao meus filhos quando tiver, e na minha atuação, como educadora.


Brinque o quanto puder, pois o corpo envelhece, mas a alma, não.

Brinque com seus filhos, pois essas lembranças sempre estarão gravadas em suas memórias, sendo passada de geração para geração.


Repasse uma brincadeira, para que nunca seja esquecida por todos.

Brinque adulto ou criança, a brincadeira está para atingir, e ser um facilitador para todos.

Brinque, que o mundo se torna melhor.

Vamos todos brincar juntos, e nunca esquecer “Promover e Facilitar o Brincar Livre.”



Referências Bibliográficas:

BRASIL. Ministério da Educação. Referencial Curricular Nacional para a educação infantil. Brasília: MEC/SEF.1998.

CUNHA, Nylse Helena Silva. Brinquedoteca: um mergulho no brincar. 4. ed. São Paulo: Aquariana, 2007.

OLIVEIRA, Vera Barros. O Brincar e a Criança do Nascimento aos seis anos. ed. Petrópolis, RJ; Vozes, 2000.

SANTOS. S.M.P. O Lúdico na Formação do Educador. Petrópolis-RJ: Vozes, 1997.

https://www.vagalume.com.br/kell-smith/era-uma-vez.html. Acesso em: 29 março. 2019.

WINNICOTT, D. W. O Brincar e a Realidade. Ed. Imago, Rio de Janeiro, 1975.

ZANLUCHI, Fernando Barroco. O Brincar e ao Criar: as relações entre atividade lúdica, desenvolvimento da criatividade e Educação. Londrina: O autor, 2005.









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