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Desenvolvendo o aspecto motor e intelectual

- LUCIANA ORTIZ KFOURI -




O brincar deve auxiliar no desenvolvimento motor e intelectual, além de ser responsável por parte do desenvolvimento pessoal e emocional (ensinando coisas como o respeito às regras, trabalho em equipe e lidar com a frustração de perder). Brincando, a criança aprende a agir na esfera cognitiva, sendo a brincadeira uma transição entre as situações da infância que são reais e o pensamento adulto.


Sabendo o tamanho da importância do direito de brincar, deve-se levar em consideração também as diferentes etapas do desenvolvimento e o fato de que cada criança se desenvolve em um ritmo diferente (e com suas preferências individuais), ao mesmo tempo em que devemos estar atentos à igualdade em oportunidades para brincar (seja relacionada à gênero, raça, classe, capacitismo etc.) para assegurar que o Artigo 31 da Convenção dos Direitos da Criança da ONU (“Toda criança tem o direito ao descanso e ao lazer, a participar de atividades de jogo e recreação apropriadas à sua idade e a participar livremente da vida cultural e das artes”) e o Artigo 227 da Constituição Federal brasileira (1998) sejam respeitados.


De acordo com o Guia “O direito de brincar de todas as crianças”, feito pela Rede Nacional Primeira Infância (2014), existem algumas condições básicas para que o direito de brincar seja plenamente assegurado: (i) efetivar políticas públicas (que garantam o exercício do direito de brincar e difundam as garantias legais existentes); (ii) ampliar a informação e comunicação para todos os públicos (em relação à importância do brincar para o desenvolvimento infantil); (iii) assegurar a oferta de espaços adequados (se atentando às condições dos espaços físicos e relacionais); e (iv) promover a formação e o empoderamento dos Agentes (guardiões do direito de brincar das crianças que promovem para todas as crianças – sem exceção – oportunidades lúdicas com conhecimento, qualidade e sustentabilidade).

Compreendidas como planos governamentais, as políticas públicas que têm como objetivo atuar na área da infância costumam sofrer diversos empecilhos, entre eles a falta de profissionais qualificados e a falta de recursos financeiros. Hoje, é preciso compreender a infância como algo dinâmico, que se constrói diariamente dentro de um contexto socioeconômico e político e que deve ser alvo e objeto de políticas públicas sérias e adequadas à realidade. Diante disso, as indústrias, ONGs e grupos organizados de profissionais da sociedade civil se debruçam sobre as ciências sociais a fim de compreender os novos cenários e encontrar soluções para auxiliar o poder público, pois sabe-se que a avaliação e monitoramento de projetos são grandes desafios para a otimização do uso de recursos em ações sociais mais eficientes.


Segundo a Unesco, a educação se torna indispensável à humanidade na construção de novos ideais caracterizados pela paz, pela liberdade, pela igualdade de oportunidades e pela justiça social. Como o mundo está em constante mudança, a educação também deve ser dinâmica (como a infância) e durar por toda a vida. A educação do ser humano engloba o brincar, pois também é por meio dele que se aprende a cultura dos mais velhos; no entanto, a brincadeira ainda é o inverso do trabalho (e, infelizmente, da maioria da educação nas escolas) pelo fato de ser escolhida (Carneiro e Dodge, 2007).




Para que o brincar seja inclusivo e diverso, devemos levar em conta as nossas diferenças de aparência, de habilidades, de interesses e de idade (entre outros), lembrando sempre que as pessoas se complementam e dependem umas das outras. Na sociedade em que vivemos, com grande competitividade e com uma visão de mundo dualista, o brincar ensina a convivência com os outros, a cooperação e a comunicação (juntamente com o desenvolvimento da linguagem), podendo diminuir os índices de conflito e violência.


Para que uma criança (com deficiência ou não) se sinta aceita e incluída, ela deve ser ouvida e respeitada como sujeito de direito; deve sentir-se parte de um grupo/comunidade/mundo. Logo, há muito mais no brincar do que apenas o desenvolvimento físico, mental e emocional: há o afeto, o estímulo e o reconhecimento do outro e no outro.


Segundo Martins (2009), desde os primeiros meses de vida a criança se inclui no mundo por meio dos vínculos que estabelece com as pessoas à sua volta (principalmente seus cuidadores); isso é uma necessidade básica que permanece durante toda a vida. Ao brincar, conseguimos adquirir os conceitos de valores fundamentais (como confiança, honestidade, cuidado com o próximo, tolerância etc.), criatividade, sustentabilidade, senso de pertencimento, limites e responsabilidades.


De acordo com a autora, o brincar é um espaço em que as crianças podem descobrir o próprio significado da vida e serem elas mesmas, e os brinquedos e brincadeiras fazem parte do imaginário infantil, contribuindo para a educação e servindo de instrumentos para a inclusão da criança em todos os ambientes e para a sua interação com os demais (