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A Criança e o Brincar

- Priscila Galvão -


“A natureza quer que as crianças sejam crianças antes de serem homens. Se quisermos perverter essa ordem, produziremos frutos temporãos, que não estarão maduros e nem terão sabor, e não tardarão em se corromper; teremos jovens doutores e velhas crianças. A infância tem maneiras de ver, de pensar e de sentir que lhe são próprias.” ( Jean Jackes Rousseau apud Pinheiro p.1).


A Criança


De acordo com o dicionário Aurélio, o significado de Criança é: 1. Ser humano de pouca idade, menino ou menina. 2. Fig. Pessoa ingênua, infantil, imatura. Por sua vez Infância, tem como significado, etapa da vida humana que vai do nascimento à puberdade, puerícia, meninice. 2. As Crianças. (...)

A definição de infância como se tem atualmente é diferente do que se tinha há alguns tempos atrás. Na antiguidade a criança não tinha valor dentro da sociedade. Em decurso da Idade Média, as crianças eram consideradas pequenos adultos ou seres unicamente biológicos, por isso, infere-se que a idéia de infância é recente. Por tempos entendeu-se que a criança é um adulto em construção, entretanto, segundo Carneiro e Dodge (2007) a “adultização da infância” é nociva para o universo infantil, porque as crianças deixam de ser crianças, queimando uma etapa de seu desenvolvimento.

Historicamente, no Brasil o trabalho foi supervalorizado, em face do ócio e/ou do brincar, pois brincar é considerado por determinados grupos como “perder tempo”. Essa postura vem causando inúmeros prejuízos ao desenvolvimento de crianças e jovens, sendo inclusive um dos motivos que tornam difícil a erradicação do trabalho infantil, pois ainda existem pessoas que compartilham do paradigma de que é melhor trabalhar que ficar “sem fazer nada”. (Thornton, Talbot e Flores, 2013 p. 18)

Hodiernamente as mudanças sociais têm estabelecido uma nova forma de enxergar a infância e a criança. As estruturas sociais, as condições de vida, as concepções intelectuais estão passando por mudanças contínuas e expressivas. Transformações vistas no cotidiano, desde a composição familiar, na escola, nos espaços públicos, na propagação das mídias sociais e a comunicação está cada vez mais rápida. Para Mamede (2003), há que se considerar que a família, do ponto de vista da sua estruturação, vem passando por profundas modificações, o que acarreta diferentes configurações e transforma literalmente as relações existentes em seu interior. (apud Carneiro & Dodge, 2007 p.82).

Em diversos países, a criança já vem sendo percebida como co-criadora, ou seja, sujeito que participa e interfere na construção da realidade em que vive. Portanto, essa criança não deve ser vista fora do contexto, mas como um resultado da realidade do meio em que é proveniente. Sendo percebidas suas peculiaridades e vista como sujeito de direitos e deveres. A família é o ambiente no qual ela “desperta para a vida como pessoa, interioriza valores, atitudes e papéis, onde se desenvolve de forma espontânea o processo fundamental da transmissão de conhecimentos, de costume e de tradições”. (Homem, 2002 p.36 apud Carneiro & Dodge 2007 p. 110).

Para formação da identidade pessoal e social da criança, ela precisa estar em contato com realidades diferentes, para apreensão de valores, construção de conhecimentos e idiossincrasias. Para isso, recebe contribuições da família, professores, colegas de classe, outras crianças, ou seja, ela necessita de interação para o processo de aprendizagem, conforme interage ela cresce e socializando entende-se como sujeito. Segundo Martins[1], as crianças precisam de oportunidades para desenvolver seu corpo, mente e alma, de forma indivisível e integrada.

Não existem preocupações em estabelecer um modelo de criança, mas sim em compreender a infância como um todo, partindo do cuidado e atenção, inserindo o infante no contexto cultural, social, político e econômico do qual esse é partícipe. É cuidando desse momento da vida, a infância, que poderemos ter um mundo mais justo, menos violento, onde o respeito ao semelhante é praticado, com maior qualidade de vida para todos, entre outras ações. Portanto, viver a infância é direito de todas as crianças, e a infância é entendida como condição indispensável para que as crianças exerçam uma cidadania consciente e refletida, que possa servir de base para um mundo melhor. (Carneiro & Dodge 2007 p.26)

Entre os direitos concedidos a criança, está inserido o direito de brincar de forma livre e que assegure a essa o seu desenvolvimento. Mas como brincar em meio a uma sociedade que se expande de maneira caótica, onde tempo e espaço fica cada vez mais escasso?

Com excesso de atividades que tomam o tempo livre das crianças, tarefas que vão além das aulas escolares, como por exemplo: cursos de línguas estrangeiras, curso de informática, esporte e/ou danças, etc. Tarefas que mantêm cada vez mais as crianças fora de casa, que preenchem e/ou consomem o tempo livre sem permitir que a criança tenha momentos para explorar os próprios limites, experimentar a liberdade ou simplesmente brincar. Em determinadas parcelas da sociedade, as crianças precisam cumprir com responsabilidades em casa, como por exemplo: o trabalho doméstico, o cuidado com os irmãos menores, enquanto os pais trabalham, essas “obrigações” cerceiam o brincar dessas crianças.

Além da escassez de tempo, observa-se também, que os espaços disponíveis para o brincar tem-se reduzido. Carneiro & Dodge (2007) afirmam que o brincar livre que está sendo mais prejudicado pelas transformações do espaço urbano.


O espaço significa, para a criança, um local onde se adquire o conhecimento, uma vez que nele se desenvolvem as primeiras sensações infantis. Mas, apesar de ser nesse espaço físico que a criança estabelece as relações com o mundo, ele não tem sido pensado em função de suas necessidades. (Carneiro & Dodge 2007 p. 76)

As crianças necessitam de espaço para brincar, sendo esses abertos e fechados. Espaços abertos abrangem: quintais, play grounds, ruas, quadras esportivas, espaços rodeados de natureza, parques, praças, pátios escolares, entre outros. Espaços fechados: espaços dentro de casa reservados exclusivamente para o brincar, brinquedotecas, sala de aulas, etc.

A expansão da urbanização tem modificado a forma de viver nas cidades. A rua que outrora era um espaço de convívio e interações sociais, tornou-se um local (por vezes) impraticável dentro do contexto do brincar. Com o aumento da violência, o tráfico de drogas, a intensidade do tráfego de veículos automotivos, a exploração imobiliária, tem limitado e reduzido os espaços abertos para o livre brincar. Com isso, as brincadeiras estão reduzidas, e a oportunidade de se movimentar diminui muito. (Ibidem)


Toda criança tem o potencial para ser criativa, original, espontânea e inovadora cada criança é um explorador e só precisa de um ambiente estimulante que lhe permita expressar livremente os seus sentimentos, as experiências e uma compreensão da vida. A criatividade das crianças precisa ser alimentada e desenvolvida desde cedo para que ela possa continuar a crescer ao longo de suas vidas. (Thornton, Talbot & Flores, 2013 p.144)


O Brincar


Brincar para a criança é uma atividade gratuita, que causa satisfação, sentimentos de alegria, não custa caro, precisa ser seguro, não deve machucar sentimentos, corpos e amizades, necessita ser justo e livre. Brincar, conforme Ruffo[2] significa “o que as crianças fazem quando deixadas por sua própria conta. Não há certo ou errado para brincar, nem brincadeira boa ou ruim.

Para Freud (1948 apud Carneiro & Dodge 2007 p37), a brincadeira possui funções principais: a da reprodução dos acontecimentos desagradáveis e a da sua modificação pelo brincar, a criança representa o mundo em que vive, transformando-o de acordo com seus desejo