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A primeira infância e o brincar

- Maisa Pessoa Ramansini Pinto -



Ao contrário do que alguns acreditam, o desenvolvimento motor é adquirido através de fatores biológicos, ambientais e ocupacionais, levando a um processo permanente de alterações funcionais do organismo. Sendo que com o caminhar da vida, tais habilidades desenvolvidas e adquiridas poderão passar por alterações e ajustes para então novamente se adequar aos fatores biológicos, ambientais e ocupacionais que vieram a ser modificados (Giordani, et. al., 2013).

Naturalmente o individuo virá a se desenvolver, se adequará aos fatores ambientais, biológicos e ocupacionais para então adquirir suas habilidades, estabelecendo uma sequência nos fatos ocorridos percorrendo cada etapa para então passar para a próxima. Entretanto, há fatores que podem interferir para tais habilidades serem adquiridas em menor tempo, dificuldade ou empenho. A hereditariedade estabelece as bases para o desenvolvimento, porém, o ambiente/experiência é quem afeta o ritmo e a aquisição das habilidades motoras. Além disso, o ambiente desempenha importante papel no desenvolvimento da linguagem enquanto a cognição e a personalidade são mais influenciadas por variações de experiência. (Giordani, et. al., 2013)

Oportunidades, interações ambientais, encorajamento, estímulos sociais são essenciais e garantem que a criança possa adquirir habilidades e ter um desenvolvimento adequado às suas necessidades e competências. (Oliveira, 2012)Pais e cuidadores são os principais agentes do desenvolvimento motor, e, a casa é o principal ambiente da criança na primeira infância. Desse modo, os estímulos apresentados a esta criança são os influenciadores no ritmo de seu desenvolvimento e na sua eficiência. Se proporcionamos variedade de estímulos, sensoriais, motores, sociais e ambientais por exemplo, daremos oportunidades para a criança adquirir novas habilidades ou aprimorar as já presentes.


Outro fator que deve ser levado em consideração é a apresentação de tais estímulos. Socialmente o ambiente de interação do bebê é muito limitado devido a crenças e ignorância quando nos referimos ao desenvolvimento motor. Por vezes, bebês típicos ou atípicos, podem ter poucas oportunidades para se desenvolver. Frases e ações de exclusão ou inibitórias são facilmente previstas em um ambiente pouco estimulado ou ausente de informações. Desencorajando assim tanto pais e cuidadores quanto as próprias crianças. Desse modo encontra-se a importância em capacitar profissionais e mesmo pais e cuidadores quanto a importância do estímulo e apresentação do ambiente para a criança se desenvolver motora e psicologicamente. Profissionais que podem vir de diversas áreas dependendo da necessidade apresentada pela família e pelo ambiente ali inseridos. Cada profissional habilitado para trabalhar com a faixa etária da primeira infância irá avaliar e estabelecer suas condutas oferecendo oportunidades biológicas, ambientais e ocupacionais para a criança dentro de suas necessidades.

Avaliar a estimulação disponível para a criança dentro de uma determinada família e propor intervenções com a participação efetiva dos pais/cuidadores são atitudes que podem fornecer elementos importantes para o alicerce e formação de políticas de saúde e educação nos programas voltados ao desenvolvimento da primeira infância. (Oliveira, 2012).



Após avaliação e elaboração de condutas, facilmente encontraremos o brincar como foco de atenção e desenvolvimento. Durante a primeira infância, estruturamos o brincar com manipulação de objetos, estímulos visuais e sonoros, despertando interesse, aquisição de posturas e movimentos. A apresentação do brincar pode ser avaliado e prescritos modificações quando necessário, proporcionando assim oportunidade de conhecimento e interação da família e cuidadores, bem como da criança. Dentro da fisioterapia encontramos instrumentos de avaliação como o Affordances in the Home Environment Motor Development (AHEMD) que abrange sua avaliação ao espaço físico interno e externo, atividades diárias, brinquedos e outros materiais da residência e a Alberta Infant Motor Scale (AIMS) que avalia diretamente o desenvolvimento motor de bebês. Existem ainda muitos outros que quando aplicados por profissionais podem ser de grande valia para auxiliar famílias e cuidadores na indicação das necessidades da criança.


De mais, o importante é dar a oportunidade de brincar. Como o desenvolvimento que sofre alterações de acordo com o ambiente, biologia e ofícios, o brincar também sofre interferências culturais, evolutivas e variáveis com o ambiente, biologia e ofícios dentro da própria atividade humana, representando assim o desenvolvimento das necessidades dos povos na construção da civilização. (Fortuna, 2010) Por sua vez brincar, de origem latina, resulta das diversas formas que assumiu a palavra vinculum, passando por vinclu, vincru até chegar a vrinco. É assim que do significado inicial "laço" passa por "adorno, enfeite, jóia que se usa presa na orelha ou pendente dela" até chegar à idéia de brinquedo e brincadeira. Na mitologia grega Brincos eram os pequenos deuses que ficavam voando em torno de Vênus, alegrando-a e enfeitando-a. (Fortuna, 2010). Brincar proporciona estímulos, auxilia no entendimento emocional e sensorial, auxilia no desenvolvimento motor, na aquisição de habilidades e no seu refinamento independente da idade.

O contato do bebê com o familiar ou cuidador durante o momento do brincar estabelece vínculos, contatos, interações e confiança tanto em aspectos psicossociais quanto motores. Quando ainda desenvolvidas brincadeiras de origens culturais diversas, todos se beneficiam, mergulham na história por trás daquele momento, dando continuidade cultural e permanência na sociedade. (Fortuna, 2010)


Hoje a sociedade se desenvolve mais rápido e com menor contato físico e social do que na época de nossos antepassados, a tecnologia veio como um novo meio de brincar que muitas vezes pode estar sendo utilizado como uma distância no desenvolvimento motor em vez de uma aproximação. Desse modo é exigido cautela na administração de determinados equipamentos, sendo até interessante realizar a troca ou associação com momentos do brincar tradicional.

Entretanto, como tudo deve ser bem orientado. Um ambiente rico de estímulos corretos para a faixa etária da criança, pode lhe proporcionar oportunidades de desenvolvimento motor e ganho de habilidades em ritmos adequados ou superiores.

Considerações Finais


A partir do exposto, é notado um benefício conjunto de familiares, cuidadores e crianças. Onde além de promover o desenvolvimento motor e social da criança, estabelecem vínculos de permanência com sua própria história e cultura. Entretanto, o desenvolvimento tecnológico e intervenções do ambiente seguem como fatores cruciais na interação de estímulos no ambiente residencial. Além do uso verbal de encorajamento e empenho das novas habilidades adquiridas. Nota-se a necessidade de qualificação profissional e principalmente instrução de familiares e cuidadores quanto a importância do brincar.

Bibliografia

FORTUNA, T. R. Vida e morte do brincar. In: ÁVILA, I. S. (org.) Escola e sala de aula: mitos e ritos. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2004. p. 47-59. Disponível: < http://www.escolaoficinaludica.com.br/atuacoes/artigos/Jogo%20vida%20e%20morte%20do%20brincar.pdf> Acesso em: dezembro de 2019.

GIORDANI, L.G., ALMEIDA, C.S., PACHECO A.M. Avaliação Das Oportunidades De Desenvolvimento Motor Na Habitação Familiar De Crianças Entre 18 E 42 Meses Motricidade FTCD/FIP-MOC 2013, vol. 9, n. 3, pp. 96-104

LOPES, Regina Maria Fernandes, et.al. Desenvolvimento Cognitivo E Motor De Crianças De Zero A Quinze Meses: Um Estudo De Revisão In: Psicologia.com.pt, 31 de julho de 2010, Disponível: <https://www.psicologia.pt/artigos/textos/A0529.pdf> Acesso em: dezembro de 2019.

OLIVEIRA, Sheila Maria Silva de, ALMEIDA, Carla Skilhan de, VALENTINI, Nádia Cristina Programa De Fisioterapia Aplicado No Desenvolvimento Motor De Bebês Saudáveis Em Ambiente Familiar Rev. Educ. Fís/UEM, v. 23, n. 1, p. 25-35, 1. trim. 2012

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