Brincar de desenhar

- GABRIEL VALIM ALCOBA RUIZ -


Entre as múltiplas possibilidades de brincadeiras, o desenho é uma oportunidade de desenvolvimento da criatividade e da coordenação motora. Não saber desenhar pode ser uma insuficiência técnica ou não saber o que desenhar pode ser apenas uma ausência de inspiração, estes elementos inibem muitas pessoas, de mergulharem na brincadeira do desenho. Neste artigo, serão analisadas algumas possibilidades de exercícios de desenho, visando o desenvolvimento criativo.

Encarando a folha em branco - dando vazão a criatividade

“Numa folha qualquer Eu desenho um Sol amarelo E com cinco ou seis retas É fácil fazer um castelo”

O excerto acima é parte da música Aquarela , de Toquinho, e é frequentemente utilizado como uma ilustração musical deste ato que é uma das mais antigas formas de arte (Ostrower, 1993). Nem todos, porém, concordam com a facilidade do ato de desenhar apontada pelo músico, e a ansiedade de desempenho leva muitos adultos a declarar enfaticamente não saberem desenhar, visando evitar uma possível vergonha diante de sua carência técnica.

Em primeiro lugar, é necessário reconhecer o papel que se pretende com um desenho. Se, por um lado, é razoável exigir alta precisão no desenho técnico de um engenheiro que modela uma aeronave ou um prédio – porque de sua habilidade dependem vidas – esse não é o contexto de muitos desenhos.


Quando o exercício ocorre visando o entretenimento, pouca ambição implícita há, além da diversão pessoal daqueles que desenham. Além disso, mesmo no âmbito profissional não há necessariamente a obrigação da alta precisão do desenho técnico: cartunistas como o Glauco Villas Boas não são reconhecidos pelo alto grau de refinamento de seus desenhos, quando comparado a renascentistas como Leonardo da Vinci, mas sim pelo seu estilo cômico e pelas criativas narrativas criadas. Assim, a preocupação com a forma do desenho, frequentemente, sobrepõe a preocupação com o conteúdo, o que é injustificado em diversos contextos.

Desafiando o papel

É possível estabelecer alguns princípios que estimulem a criatividade no desenho. Em uma série de livros para o público interessado – independentemente do nível técnico do leitor – Peter Jenny propõe alguns exercícios para aqueles que desejam que visa desenvolver sua criatividade no desenho.

Jenny (2014b), em seu livro Técnicas de desenho , propõe, por exemplo, que o leitor reconheça que sua própria caligrafia é uma forma de desenho e faça exercícios de alterar certas características – Que resultados podemos obter se puxarmos a alça inferior do g minúsculo mais para baixo? E se inclinarmos uma certa reta, como ela se pareceria? Outros exercícios envolvem, por exemplo, tentar representar o percurso realizado por alguém em um mapa de papel, representar a trajetória realizada pelo corpo de alguém enquanto dança, bem como outros exercícios de observação de objetos bi e tridimensionais.



Apenas depois de propor diversos exercícios de observação, incluindo detalhes como luz e sombras, o autor propõe que se façam exercícios de desconstrução – representando cada componente de um objeto por meio de formas geométricas – e finalmente exercícios de imaginação e construção de cenas, que num primeiro momento visariam a representação da memória de algo concreto e existente para, só então, usar artifícios como a extrapolação de alguma característica – aumentar demasiado as orelhas de um cachorro, ou a proporção dos móveis de uma casa. É possível observar, assim, que a abordagem de Jenny (2014b) é a de partir de objetos mais concretos para outros mais abstratos, baseando-se na compreensão de que a criatividade pictórica demanda certo conjunto de repertórios prévios.

A abordagem é complementada em outro de seus livros, o Desenho Anatômico (Jenny, 2014a). Neste livro, o autor iniciar com alguns exercícios como o de observação e rememoração do observado. Em seguida, passa a exercícios de rabisco, que levem num primeiro momento ao desenho do esqueleto dos objetos a serem desenhados, visando reconhecer as proporções e alturas, num segundo momento a representação dos volumes, por meio de desenhos curvos, para só em momento posterior tentar integrar todos os elementos – proporções, volumes e alturas – num primeiro momento na representação de seres observados, para gradativamente partir para situações imaginadas. O final do livro, porém, rompe com a trajetória de trazer desenhos mais concretos e propõe exercícios de desenho mais insinuativos, onde apenas alguns elementos da anatomia dos seres é destacada, resultando em desenhos mais abstratos, mas que preservem alguma semelhança com o desenho original.

O desenho abstrato será trabalhado sobretudo no livro Um olhar criativo (Jenny, 2014c). Nele, o autor propõe exercícios de observação e experimentação, fazendo uso de borras de café, papel amassado, madeira, tecido, nuvens, linhas de costura jogadas, retalhos, tachinhas, pregos e parafusos etc. Por meio da observação da desorganização, Jenny propõe que o leitor tente encontrar figuras e padrões ocultos. Talvez um urso se esconda nas nuvens, talvez uma calça jeans amassada possa revelar um rosto a depender do ângulo e da parte em que se enfoca. A criatividade, assim, seria desenvolvida para o autor por meio da experimentação com diferentes texturas, imagens e luzes, buscando reconhecer nisso possibilidades.

A arte final


Levando em conta os exercícios propostos por Jenny, é possível propor que a sensação de incapacidade para desenho pode ser superada mediante a exposição gradual a exercícios que desafiem sistematicamente o nível técnico e criativo do estudante. Para isso, o autor não propõe um mero confronto da folha em branco, mas sim uma série de exercícios que incorporem elementos ao repertório do desenhista e busquem resgatá-los, compondo artes mais complexas – e portanto criativas. Para um Agente do Brincar que se proponha a promover uma brincadeira de desenho, podemos propor que na brincadeira o Agente não apenas leve os materiais diretamente necessários – papéis, lápis, canetinhas, gizes etc, mas que busque trazer também materiais diversificados de onde o aluno possa extrair inspiração e superar o medo da folha em branco.

Bibliografia

JENNY, Peter. Desenho Anatômico . Editora GG Brasil: São Paulo, 2014 (a). JENNY, Peter. Técnicas de desenho . Editora GG Brasil: São Paulo, 2014 (b). JENNY, Peter. Um olhar criativo . Editora GG Brasil: São Paulo, 2014 (c). OSTROWER, Fayga. Criatividade e processos de criação . 9 ed. Petrópolis: Vozes, 1993.

35 visualizações

© 2016 IPA BRASIL. Criado por Andréia Luz via WIX.

Contate-nos: +55 11 3255-4563 * contato@ipabrasil.org

                      Rua José Armando Affonseca, 103 (antiga Itambé, 341) 

                      Higienópolis - São Paulo, SP - 01239-001

  • Facebook - White Circle
  • Instagram - White Circle
  • YouTube - White Circle

ipa brasil, rede brincar, pelo direito de brincar, artigo 31 ONU, agentes do brincar, mediadores do brincar, agentes do brincar inclusivo, International Play Association, ipa world, direito da criança, estatuto da criança e do adolescente, marilena flores, janine dodge, ipa brasil