Brincar e a Cidade
- IPA Brasil

- 13 de nov. de 2020
- 7 min de leitura
- Mariana Carretero -

A discussão em torno de considerar e ouvir as crianças sobre o desenho da cidade e as suas vivências nos espaços públicos é bastante nova. Pensadores da infância como Tim Gill, Francesco Tonucci, Sérgio Eduardo dos Santos Porto e Leonardo de Albuquerque Batista, argumentam sobre essa relação entre a criança e a cidade.

Para o inglês Tim Gill, pesquisador sobre a infância, as crianças necessitam de mais liberdade para explorar e brincar livre em suas cidades, que deveriam ser mais seguras e providas de natureza. O italiano Francesco Tonucci, pedagogo, também defende a autonomia das crianças na cidade. Essa autonomia, de acordo com as experiências mundiais de Tonucci, é possível quando a criança se torna modelo de referência para o desenho urbano, o que torna às cidades mais acessíveis e seguras para todos. Em correlação às ideias de Gill e Tonucci, o arquiteto brasileiro Sérgio Eduardo dos Santos Porto defende que as crianças brinquem na cidade e o pesquisador em sociologia da infância Leonardo de Albuquerque Batista, argumenta sobre a criança ser considerada e ouvida nos debates sobre o espaço urbano.
O arquiteto, Sérgio Porto, discorre sobre a relação da criança e a cidade no seu artigo O brincar como experiência do e no espaço urbano. O autor define os termos relacionados ao tema, lembrando que a palavra criança vem da mesma origem em latim da palavra criar. O brincar da criança é sua forma de reproduzir e entender a sociedade em que ela vive, e sua capacidade imaginativa a permite criar fantasias no mundo real, sem desprezá-lo.

Porto também discorre sobre a questão do corpo, que ele coloca como o primeiro instrumento do ser humano, que constrói e é construído pelo brincar. Ele compara a cidade a um corpo, explicando o porquê da importância de permitir o brincar na cidade, que resultaria em construção para a criança e transformação para a cidade.
No artigo A cidade do meu tamanho, Leonardo de Albuquerque Batista, defende que a criança passe a ser vista como cidadã, capaz de observar e de opinar sobre a cidade. Sugere que a criança seja pensada como protagonista do espaço e como capaz de transformar a cidade através de suas opinião e vivência. O autor menciona o termo cidade amiga da criança que é usado para identificar cidades que permitem a autonomia, liberdade e a segurança das crianças e incentivam o brincar.
Partindo das ideias, explicações e exemplos concretos desses pensadores da infância, é possível fazer reflexões acerca da qualidade da vida e desenho urbano na cidade de São Paulo. E É preciso lembrar que a vida urbana acontece em espaços públicos abertos e fechados.

Em termos de arquitetura e urbanismo, para a sociedade e profissionais da área mencionada, os espaços das crianças na cidade são aqueles projetados de forma lúdica para que elas aprendam e se divirtam em um ambiente infantil, seguro e próprio para elas, normalmente segregado dos demais espaços.
O urbanismo de São Paulo, assim como de outras grandes cidades brasileiras, acompanhou as necessidades exigidas pelo progresso e cotidiano de adultos e, associado a fatores como o aumento da violência e do fluxo de veículos, resultaram em uma segregação ainda maior dos espaços infantis. Se antigamente as crianças brincavam nas ruas com os amigos e muitas vezes sem a supervisão de um adulto, atualmente estão cada vez mais restritas aos ambientes internos.

É possível observar a diferença entre às cidades menores e as grandes metrópoles. Enquanto uma ainda é capaz de abrigar as brincadeiras em suas ruas com menor tráfego, grandes praças preservadas e jardins, a outra intensifica a interiorização das brincadeiras, com ruas pensadas para favorecer os automóveis, parques sem manutenção e suprimindo a natureza.

Nas grandes metrópoles brasileiras a segregação espacial também está associada à segregação social. Os ambientes públicos abertos com qualidade projetual e com manutenção constante encontram-se, em sua maioria, nos bairros mais nobres, longe das regiões periféricas. Os empreendimentos e as casas dessas regiões também são projetados para abrigar internamente o brincar, com áreas de lazer, como piscinas, quadras playgrounds, brinquedotecas e quintais. Nas periferias, esse espaço de lazer nem sempre existe na maioria das casas e é onde mais se encontra a resistência das crianças em tornar a rua e o espaço público, seus quintais do brincar.
A revisão do urbanismo de São Paulo, com intervenções e reconstruções no espaço urbano, se faz necessária para a construção de uma cidade mais igualitária e com melhor qualidade nos espaços públicos. Porém não se trata apenas de requalificar praças e parques e construir ou potencializar os já existentes equipamentos públicos nas áreas mais carentes de lazer. A mobilidade urbana também precisa ser repensada.

Sendo os automóveis considerados os protagonistas do espaço urbano, a mobilidade dos pedestres é, na maior parte da cidade de São Paulo, precária. As calçadas têm espaço reduzido para que as ruas sejam mais largas e comportem o máximo de automóveis possíveis. Além da largura, os pedestres precisam enfrentar a falta de manutenção e fiscalização do espaço das calçadas. Buracos, degraus, avanço de construções e objetos e árvores maiores que os permitidos pelas leis municipais, são os obstáculos que tornam o passeio público perigoso e ausente de acessibilidade.

Quando Gill e Tonucci defendem a autonomia e liberdade da criança na cidade, e Batista apoia uma cidade amiga da criança, é também sobre a mobilidade e passeios públicos que eles se referem. Se o pedestre fosse considerado o protagonista do espaço urbano, e se as crianças fossem o modelo de pedestre, seriam necessários espaços mais largos, com nivelamento mais uniforme e com objetos e natureza de tamanho adequado para que não invadam o caminho do pedestre. Essas seriam ações que permitiriam um passeio público mais capaz de abrigar o livre explorar e brincar da criança. E, com isso, o passeio público seria mais seguro e acessível para pessoas de todas as idades e para àquelas com mobilidade reduzida.
A experiência no Glicério, brevemente relatada por Sérgio Porto, mostra uma ação de arquitetos e urbanistas, envolvidos em projetar espaços, atuando com a ajuda das crianças. Elas são ouvidas e ensinadas sobre o lugar onde moram e ajudam a elaborar e executar as mudanças físicas que ocorrerão nos espaços de seu bairro. Para elas é uma brincadeira, e é uma brincadeira que modifica o espaço, tornando-o mais propício e atrativo para o brincar e todas as outras atividades referentes à vida urbana em comunidade.

A maioria dos equipamentos públicos fechados de cultura e lazer, como Museus e Centro Culturais também se encontra mais próxima de bairros de classes econômicas mais altas. No entanto, suas questões de localização se diferem um pouco dos espaços abertos. A localização desses espaços fechados muitas vezes é parte da história do próprio espaço e da cidade, pois muitos são patrimônios históricos.
E assim como nos espaços abertos, nos espaços públicos fechados também há desigualdade social, pois muitos ainda são vistos e muitas vezes realmente são apresentados, como locais apenas para elite ou pessoas com formação acadêmica. Além da desigualdade, ainda existem convicções de que museu e patrimônio histórico não é lugar de criança, pois elas são novas para entender sobre história, arte, cultura e a importância desses espaços e os objetos que expõem. Nessa lógica, criança só brinca e museu é lugar de seriedade.
Contudo, se o espaço não é utilizado por todas as esferas da sociedade ou visto como importante para a vida e história da cidade e de cada cidadão, não se pode esperar que a preservação do espaço e do que ele representa seja relevante ou prioridade para a população. A ideia de que não são lugar para crianças, resulta em adultos sem interesse por esses espaços e seus assuntos, já que eles não estavam inseridos em seu processo de descobertas e aprendizados da infância.

Ações em várias partes do mundo, apresentadas pelos pensadores da infância citados, em que crianças foram ouvidas e consideradas nas modificações dos espaços, resultaram em cidades mais perto de se tornarem confortáveis, seguras e igualitárias. Considerando essas experiências e as discussões sobre o tema, as crianças se mostram capazes de tornarem-se parte da realização e transformação do desenho urbano e espaços públicos para uma cidade com melhor qualidade de vida.
A criança experimenta e aprende a cidade através do brincar. Sendo assim, ela é capaz de opinar sobre os espaços, as formas, as cores, os barulhos, os caminhos e dizer, sobre a sua perspectiva e com seu próprio entendimento, o que funciona para ela na cidade e o que não funciona. E se a cidade é boa para ela, então ela funciona para todos porque o máximo para um modelo vulnerável foi feito.
Conclusão

Os pensadores da infância citados defendem que as crianças tenham espaço na cidade, e na cidade como um todo. Portanto, estando de acordo com seus argumentos, todo espaço público da cidade, aberto ou fechado, seria lugar de criança. Se o brincar é para a criança a maior forma de interação e que permite vivenciar e perceber os espaços, ele deveria ser incentivado pelo desenho e dinâmica da cidade. Se as pessoas não tiverem a oportunidade de viver à cidade desde crianças, não se pode esperar que elas criem um vínculo com os espaços urbanos e públicos e queiram melhorá-los e preservá-los.
Considerando as crianças os modelos de cidadão que o desenho e a dinâmica da cidade precisam acolher e permitindo que elas possam opinar e contar suas perspectivas da cidade, a sociedade conseguirá repensar e redesenhar o espaço público e a vida urbana da cidade, tornando-a satisfatória para todos.
Bibliografia
BATISTA, Leonardo de Albuquerque. A cidade do meu tamanho. In: Criança, Cidade, Cidadania - Colóquio Internacional, 2016, Guimarães. Atas. Guimarães: Associação para o Desenvolvimento das Comunidades Locais, 2016. P 101-107.
MEKARI, Danilo; NOGUEIRA, Pedro. Tim Gill: Crianças no espaço público são grandes ativadoras de comunidades. Educação e Território, 2016. Disponível em < https://educacaoeterritorio.org.br/reportagens/tim-gill-criancas-no-espaco-publico-sao-grandes-ativadores-de-comunidades/>
PORTO, Sérgio Eduardo dos Santos. O brincar como experiência do e no espaço urbano. In: ENAPUR, XVIII., 2019, Natal. Anais. Natal: EDUFRN, 2019.
RIBEIRO, Adriana. Francesco Tonucci: a criança como paradigma de uma cidade para todos. Educação e Território, 2016. Disponível em < https://educacaoeterritorio.org.br/reportagens/francesco-tonucci-a-crianca-como-paradigma-de-uma-cidade-para-todos/>









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Essa discussão sobre incluir as crianças no planejamento das cidades é super interessante e recente. Pensadores como Tim Gill e Francesco Tonucci mostram como a liberdade e a autonomia delas podem transformar os espaços urbanos, tornando-os mais seguros e acessíveis. Sérgio Porto e Leonardo Batista, aqui do Brasil, reforçam que o brincar é essencial pra elas entenderem o mundo e que suas vozes precisam ser ouvidas. Aliás, pra quem tá em Lisboa e quer refletir mais sobre isso, um psicólogo em Lisboa da Psiworks pode ajudar, com especialidades em saúde mental pra todas as idades!