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Brincar e a Cidade

- Mariana Carretero -


A discussão em torno de considerar e ouvir as crianças sobre o desenho da cidade e as suas vivências nos espaços públicos é bastante nova. Pensadores da infância como Tim Gill, Francesco Tonucci, Sérgio Eduardo dos Santos Porto e Leonardo de Albuquerque Batista, argumentam sobre essa relação entre a criança e a cidade.

Para o inglês Tim Gill, pesquisador sobre a infância, as crianças necessitam de mais liberdade para explorar e brincar livre em suas cidades, que deveriam ser mais seguras e providas de natureza. O italiano Francesco Tonucci, pedagogo, também defende a autonomia das crianças na cidade. Essa autonomia, de acordo com as experiências mundiais de Tonucci, é possível quando a criança se torna modelo de referência para o desenho urbano, o que torna às cidades mais acessíveis e seguras para todos. Em correlação às ideias de Gill e Tonucci, o arquiteto brasileiro Sérgio Eduardo dos Santos Porto defende que as crianças brinquem na cidade e o pesquisador em sociologia da infância Leonardo de Albuquerque Batista, argumenta sobre a criança ser considerada e ouvida nos debates sobre o espaço urbano.

O arquiteto, Sérgio Porto, discorre sobre a relação da criança e a cidade no seu artigo O brincar como experiência do e no espaço urbano. O autor define os termos relacionados ao tema, lembrando que a palavra criança vem da mesma origem em latim da palavra criar. O brincar da criança é sua forma de reproduzir e entender a sociedade em que ela vive, e sua capacidade imaginativa a permite criar fantasias no mundo real, sem desprezá-lo.


Porto também discorre sobre a questão do corpo, que ele coloca como o primeiro instrumento do ser humano, que constrói e é construído pelo brincar. Ele compara a cidade a um corpo, explicando o porquê da importância de permitir o brincar na cidade, que resultaria em construção para a criança e transformação para a cidade.

No artigo A cidade do meu tamanho, Leonardo de Albuquerque Batista, defende que a criança passe a ser vista como cidadã, capaz de observar e de opinar sobre a cidade. Sugere que a criança seja pensada como protagonista do espaço e como capaz de transformar a cidade através de suas opinião e vivência. O autor menciona o termo cidade amiga da criança que é usado para identificar cidades que permitem a autonomia, liberdade e a segurança das crianças e incentivam o brincar.

Partindo das ideias, explicações e exemplos concretos desses pensadores da infância, é possível fazer reflexões acerca da qualidade da vida e desenho urbano na cidade de São Paulo. E É preciso lembrar que a vida urbana acontece em espaços públicos abertos e fechados.


Em termos de arquitetura e urbanismo, para a sociedade e profissionais da área mencionada, os espaços das crianças na cidade são aqueles projetados de forma lúdica para que elas aprendam e se divirtam em um ambiente infantil, seguro e próprio para elas, normalmente segregado dos demais espaços.

O urbanismo de São Paulo, assim como de outras grandes cidades brasileiras, acompanhou as necessidades exigidas pelo progresso e cotidiano de adultos e, associado a fatores como o aumento da violência e do fluxo de veículos, resultaram em uma segregação ainda maior dos espaços infantis. Se antigamente as crianças brincavam nas ruas com os amigos e muitas vezes sem a supervisão de um adulto, atualmente estão cada vez mais restritas aos ambientes internos.


É possível observar a diferença entre às cidades menores e as grandes metrópoles. Enquanto uma ainda é capaz de abrigar as brincadeiras em suas ruas com menor tráfego, grandes praças preservadas e jardins, a outra intensifica a interiorização das brincadeiras, com ruas pensadas para favorecer os automóveis, parques sem manutenção e suprimindo a natureza.


Nas grandes metrópoles brasileiras a segregação espacial também está associada à segregação social. Os ambientes públicos abertos com qualidade projetual e com manutenção constante encontram-se, em sua maioria, nos bairros mais nobres, longe das regiões periféricas. Os empreendimentos e as casas dessas regiões também são projetados para abrigar internamente o brincar, com áreas de lazer, como piscinas, quadras playgrounds, brinquedotecas e quintais. Nas periferias, esse espaço de lazer nem sempre existe na maioria das casas e é onde mais se encontra a resistência das crianças em tornar a rua e o espaço público, seus quintais do brincar.

A revisão do urbanismo de São Paulo, com intervenções e reconstruções no espaço urbano, se faz necessária para a construção de uma cidade mais igualitária e com melhor qualidade nos espaços públicos. Porém não se trata apenas de requalificar praças e parques e construir ou potencializar os já existentes equipamentos públicos nas áreas mais carentes de lazer. A mobilidade urbana também precisa ser repensada.


Sendo os automóveis considerados os protagonistas do espaço urbano, a mobilidade dos pedestres é, na maior parte da cidade de São Paulo, precária. As calçadas têm espaço reduzido para que as ruas sejam mais largas e comportem o máximo de automóveis possíveis. Além da largura, os pedestres precisam enfrentar a falta de manutenção e fiscalização do espaço das calçadas. Buracos, degraus, avanço de construções e objetos e árvores maiores que os permitidos pelas leis municipais, são os obstáculos que tornam o passeio público perigoso e ausente de acessibilidade.


Quando Gill e Tonucci defendem a autonomia e liberdade da criança na cidade, e Batista apoia uma cidade amiga da criança, é também sobre a mobilidade e passeios públicos que eles se referem. Se o pedestre fosse considerado o protagonista do espaço urbano, e se as crianças fossem o modelo de pedestre, seriam necessários espaços mais largos, com nivelamento mais uniforme e com objetos e natureza de tamanho adequado para que não invadam o caminho do pedestre. Essas seriam ações que permitiria