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Desafios e oportunidades do brincar nas grandes cidades

- Tatiana da Silva Paula -



Ao longo da formação de professores, e no decorrer da vida profissional foi comum direcionar meu olhar para o brincar voltado para o público infantil apenas no espaço escolar. Muitos autores se dedicam a investigar o brincar e suas teorias, bem como a forma como a brincadeira favorece o desenvolvimento e a aprendizagem da criança na escola. Durante este curso foram surgindo novas perspectivas sobre o brincar. Com aulas expositivas e propostas de atividades práticas, o grupo aprendeu a motivar crianças, jovens e adultos a brincar, jogar e se divertir em diferentes atividades lúdicas, que podem acontecer em um espaço qualquer. A teoria apresentada em cada aula tratava do brincar em um campo específico de estudo, como a Psicologia, a Fisioterapia, a Arquitetura, a Arte, etc.

Através do brincar é possível promover a convivência harmoniosa de um grupo, facilitando a comunicação entre pessoas, com uso de recursos simples como contação de histórias, música, expressão corporal, etc. São inúmeras as possibilidades do brincar, podemos criar brincadeiras com as palavras, com tecidos, materiais não estruturados, com os sons, com o corpo, com a imaginação, etc. Assim aprendemos que o brincar é essencial para o desenvolvimento integral, acompanha o indivíduo desde a infância até o fim da vida adulta, e é fonte de muitas das memórias afetivas que serão guardadas ao longo da vida. Escolhi escrever sobre “Os desafios e oportunidades do brincar nas grandes cidades” um dos temas apresentados que mais chamou minha atenção foi a aula sobre o papel da criança na cidade.


O espaço do brincar na rotina diária


Os médicos sempre recomendaram que para manutenção da boa saúde, sempre deveríamos praticar atividades em áreas externas. Hoje em dia, diversos estudos descrevem benefícios que se obtêm através do brincar e das atividades de lazer ao ar livre, reafirmando a importância de mantermos contato com a natureza. A vida em uma cidade como São Paulo, onde as pessoas administram uma rotina repleta de obrigações, nem sempre é possível conciliar horários para usufruirmos dos benefícios do contato direto com a natureza.

Maria Isabel Amando de Barros do Instituto Alana, organizou textos de diferentes profissionais, dando origem ao documento Benefícios da Natureza no Desenvolvimento de Crianças e Adolescentes (2019). Propondo uma reflexão sobre o modo de vida e de desenvolvimento que estamos adotando nas grandes cidades, nesta que é uma sociedade predominantemente urbana. Colocam a seguinte questão: como o mundo atual está acolhendo as novas gerações?



Neste documento, Barros (2019) aponta para os efeitos dessa expansão de área urbana, que traz como consequência o distanciamento cada vez maior entre a população e a natureza. São muitos os fatores que tem influenciado as pessoas a reduzirem o tempo de permanência ao ar livre, a autora descreve que:

Diversos fatores são responsáveis pelo contexto de confinamento ao qual todos estamos sujeitos: dinâmica familiar, planejamento urbano, mobilidade, uso de eletrônicos, consumismo, desenvolvimento econômico, desigualdade social, insegurança, violência, conservação da natureza e educação. (BARROS, 2019, p.2).

Para quem foi criança antes do crescimento das grandes cidades, a rua sempre foi vista como um lugar de socialização e lazer, ao longo dos anos, cresceu o número de veículos que circulam pela cidade e a rua passou a ser um lugar perigoso. Ao longo desse tempo as famílias foram mudando os hábitos e se adequando a essa nova forma de vida. Afetando diretamente as crianças, que cada vez menos podem correr e brincar em liberdade ao ar livre, e os jovens e adultos por sua vez, estreitaram os grupos de convívio social passaram a buscar lazer em locais fechados.


O tempo de brincar nas escolas


Um dos objetivos da escola é favorecer experiências significativa para os estudantes. Professores propõem diversas atividades práticas, planejam a organização dos espaços e da rotina, otimizando o tempo escolar.

Na Educação Infantil é muito comum ver os estudantes brincando na areia, subindo em árvores, escorregando em gramados e interagindo com os amigos ao ar livre. Estas são experiências importantes que permitem estabelecer conexões positivas com a vida e com o outro.

Barros (2019) descreve que se esses momentos não forem planejados para acontecer no tempo em que as crianças e os adolescentes estiverem na escola, ou em outros territórios educativos, talvez não aconteçam em outro horário da rotina deles, pois é comum hoje em dia as famílias buscarem escolas de tempo integral ou matricular esses estudantes em atividades no contra turno.

Considerações


Estudos de diferentes áreas já comprovaram os benefícios do brincar para o desenvolvimento, e garantir as crianças, jovens e adultos momentos de lazer e recreação nas grandes cidades é essencial para manter bom humor e ampliar a criatividade, para a construção de um ambiente, e de relações melhores no local em que vivem. Com isso é necessário pensarmos em proporcionar as crianças e jovens uma rotina equilibrada, que inclua o brincar e o lazer na promoção de um desenvolvimento saudável.

Precisamos mudar as perspectivas do brincar nas áreas urbanas, e os Agentes do Brincar surgem como facilitadores que, com conhecimento e competência, podem orientar famílias, escolas e demais segmentos da sociedade a garantir oportunidades para a efetivação do direito de brincar.

De acordo com o Guia do Brincar, “para que as oportunidades lúdicas aconteçam adultos, crianças e adolescentes, precisam atuar conjuntamente, conhecendo e respeitando as aspirações mútuas, mas, principalmente brincando”.

Embora o direito ao brincar esteja assegurado em leis, não é suficiente para garantir que ele aconteça, é papel dos adultos, sejam familiares, educadores, ou mesmo os Agentes do Brincar garantir que o brincar aconteça de forma plena.



Referencias

BARROS, Maria Isabel (org.). Benefícios da Natureza no Desenvolvimento de Crianças e Adolescentes. Instituto Alana (2019). Disponível em: https://criancaenatureza.org.br/wp-content/uploads/2019/05/manual_orientacao_sbp_cen.pdf Acesso em 14 jun. 2019.

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado,1988.

­­­­­­______. Estatuto da Criança e do Adolescente. Lei nº. 8.069/90, de 13 de julho de 1990.

______. Lei 9394, de 20 de dezembro de 1996. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Brasília, DF: Ministério da Educação e do Desporto,1996.

DODGE, Janine. O Brincar ao Ar Livre e na Natureza & Gerenciando Risco no Brincar. Apostila do Programa de Capacitação IPA Brasil. (2018).

FOUCAULT, M. “Os corpos dóceis”. Vigiar e punir: nascimento da prisão. 29ª ed. Tradução de Raquel Ramalhete. Petrópolis, RJ: Vozes, 2004a, p. 125-52.

Um brinquedo chamado natureza. http://www.educandotudomuda.com.br/um-brinquedo-chamado-natureza-brincadeiras-naturais/ . Acesso em 10 mai. 2019.

TONUCCI, Francesco A cidade das crianças. Disponível em: http://cidadeseducadoras.org.br/reportagens/francesco-tonucci-a-crianca-como-paradigma-de-uma-cidade-para-todos/. Acesso em 14 jun. 2019.

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