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O brincar na periferia 

- Anderson Maia do Nascimento -

Os espaços, sejam eles periféricos ou não, são carregados de simbologias que

configuram o uso do mesmo e dão sentido para tal (Haesbaert, 2007). Assim, o brincar na rua, no quintal de casa, ir à casa do vizinho ou frequentar o clube esportivo da comunidade, são formas de dar ressignificados à esses espaços e

transformá-los em lugares, que por sua vez é definido por Santos (2005, p. 170) como:

O cotidiano imediato, localmente vivido, traço de união de todos esses dados, é a

garantia da comunicação, trazendo à baila a questão do cotidiano e do espaço banal

como constituinte do lugar”.

A rua já não é mais vista como algo restrito à passagem, passa a se modificar e se transformar em palco de brincadeiras e em um berço de sociabilização e promovidos a partir do lazer. Há um programa da Secretaria de Esporte e Lazer da Prefeitura de São Paulo chamado “Ruas de Lazer”, das quais buscam fortalecer a cultura do brincar na rua. Um exemplo recente e notório do programa é a Avenida Paulista, que é aberta aos domingos para a população. É de extrema importância que hajam programas dessa natureza para que o direito de brincar encontre suporte para se sustentar e ser exercido pela população. No entanto não podemos esquecer que todo campo de sociabilidade há encontros com diversidade e diferenças das quais os sujeitos precisaram se adequar e se constituir enquanto grupo, o brincar na rua da periferia é livre, quase nunca há a presença de um adulto, logo as diferenças são são resolvidas alí e brincando (COTRIM; BICHARA, 2013).

Não obstante, mesmo que tratemos de um contexto do brincar na rua e até mesmo de noções de lazer da periferia, devemos dar atenção às dinâmicas de vida desses espaços, pois nem tudo é brincadeira e lazer, há trabalho e o trabalho é o oposto do divertimento, é obrigação (DUMAZEDIER, 2000).

Nesse sentido há uma preocupação de como se dá o (des)equilíbrio desses dois fenômenos lazer/brincar e trabalho, sobretudo o infantil. Ao contrário do que se possa imaginar, tanto crianças das classes

socioeconômicas privilegiadas, quanto as da periferia, perdem seu tempo do brincar

irrelevantes e dispensável (BORBA, 2006), a grande diferença nessas realidades são os contextos de trabalho/obrigação aos quais essas crianças estão inseridas, enquanto a parcela mais privilegiada se envolve em atividades de auto capacitação, como cursos extracurriculares e de idiomas, as crianças das periferias se ocupam em: cuidar de irmãos mais novos na ausência dos pais e em cuidar de praticamente todos os afazeres domésticos.

Ainda nesse sentido, há o recorte de gênero desses afazeres domésticos que são direcionados, principalmente, para as meninas com a ideia de que esse tipo de atividade estaria, de certa forma, preparando-as para a vida futura, perpetuando uma cultura machista e naturalizando uma atividade equivocada no contexto da infância (CAL, 2016).

Temos, então, um recorte de gênero das atividades de trabalho no contexto

infantil periférico, os garotos mais “livres, leves e soltos” enquanto as meninas mais

“recatadas e do lar” o que irá refletir em diferentes graus de sociabilidade e

desenvolvimento, não é uma questão de ser mais ou menos desenvolvido, mas de

formas diferenciadas de vivências e formas de ler o mundo, pelo menos nesse primeiro momento. Tendo o exposto como suporte, caímos novamente na questão de lugar, mas agora com uma reflexão sobre o lugar das meninas/mulheres na sociedade, pois se o fazer do cotidiano ditará as relações e os significados que damos aos espaços que passamos/ocupamos, nos resta indagar que as meninas só encontrarão referências nesses lugares que lhes foram impostos. Por sorte, as rupturas dos ideais machistas e patriarcais estão borbulhando e um novo horizonte de possibilidade igualitária começa a surgir.

Além do vilão que é o trabalho infantil, temos um outro protagonista maquiavélico e mais recente, porém poderoso, trata-se do celular/smartphone ou a tecnologia de forma geral. Há quem defenda e há quem condene, no entanto cabe destacar uma frase famosa das mães/avós “tudo de mais, faz mal!”. Nos resta refletir sobre esses aparelhos que encantam crianças e adultos e que atravessam classes sociais. Brincadeiras tradicionais estão cada vez mais raras, os celulares são o centro das atenções, estariam eles roubando a infância das crianças?

A utilização desenfreada dos dispositivos eletrônicos são responsáveis por uma série de complicações de sociabilidade, psicológicas, motoras e sedentarismo (PAIVA; COSTA, 2015). É estarrecedor pensar que crianças estão mais interessadas em ficar no instagram do que brincar de esconde-esconde na rua.