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OS AVÓS E O FUTURO DAS CRIANÇAS

- Daniela Signorini Marcilio -

- Fabio Lisboa -

- Marilena Flores Martins -


“Os dois melhores presentes para dar aos nossos filhos: um são raízes o outro são asas.”

Khalil Gilbran


Em uma sociedade, com mudanças culturais intensas e rápidas, podemos observar o impacto nos padrões de comporta mento das famílias, com diferentes formatos e tamanhos, em relação às gerações anteriores. Nas famílias atuais a criança, muitas vezes, não tem irmãos ou amigos com quem brincar e as mães e pais preocupados com a sua carreira profissional, passam um tempo menor com o filho, deixando-o aos cuidados de babás e/ou avós. Em famílias menos favorecidas é constante a presença de avós que acabam substituindo os pais na educação, socialização e sustento das crianças. Idosos também têm uma contribuição importante em outros aspectos da vida familiar.

Além da ajuda financeira, as mulheres idosas tendem a se manter no seu papel tradicional de cuidadoras da família, promovendo uma significativa mudança nos laços intergeracionais.

De acordo com a Síntese de Indicadores Sociais (SIS) do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) de 2016 a população mundial vem envelhecendo rapidamente em função da queda da taxa de fecundidade em diversas regiões do mundo e do aumento da expectativa de vida. O estudo informa que a população brasileira também experimenta esse fenômeno. Entre 2005 e 2015 aumentou o percentual de pessoas com 60 anos ou mais de idade na população. Neste período os idosos passaram de 9,8% para 14,3% da população brasileira, sendo que este crescimento se deu em todos os grupos etários de idosos (de 60 a 64 anos, de 65 a 69 anos, de 70 a 74 anos, de 75 a 79 anos e de 80 anos ou mais). Os maiores percentuais de idosos foram encontrados nas Regiões Sul e Sudeste, com 15,9% e 15,6%, respectivamente, e o menor na Região Norte, com 10,1% da população composta por pessoas com 60 anos ou mais de idade.

Realizada pelo IBGE (2000), pesquisa aponta que, no Brasil, mais da metade dos idosos são os responsáveis pelo sustento dos filhos e ajudam a criar os netos. A co-residência de várias gerações é uma nova forma de arranjo familiar e reforça a ideia de que experiências e valores, bem como suporte financeiro e emocional, estão sendo compartilhados entre várias gerações, destacando-se aí as relações entre netos e avós. Este fato pode constituir importante elemento de valorização do idoso na sociedade. Por outro lado, as descobertas da ciência salientam que o desenvolvimento das competências cerebrais está diretamente

relacionado ao tipo de ambiente pós-natal e social onde se insere a criança. Crianças se incluem no mundo, cedo, por vínculos criados com seus cuidadores que satisfazem suas necessidades, da alimentação ao afeto/reconhecimento.

No que se refere às condições ambientais, a interação adulto-criança e a convivência propiciada em ambientes afetivos, inclusivos e lúdicos contribuem decisivamente para o pleno crescimento do potencial infantil. A sintonia entre os seres humanos se inicia com a ligação do bebê com o seu cuidador, incluindo as primeiras trocas de sorrisos e as primeiras brincadeiras. Experiências continuadas de privação e desamparo podem ser a origem de sérios distúrbios de desenvolvimento. A relação positiva da criança com seus cuidadores é fator decisivo no desenvolvimento do apego, refletindo na sua qualidade de vida, reduzindo riscos de agressividade.

O enriquecimento do ambiente, que inclui o fortalecimento de vínculos afetivos e sociais, principalmente na faixa etária de zero aos seis anos, influencia diretamente no processo de

desenvolvimento da criança, podendo-se dizer que são fundamentais nessa fase: a estimulação humana, o tipo dos vínculos afetivos existentes e a atmosfera emocional adequada, que, dentre outras, desenvolvem a comunicação verbal e a linguagem, fatores importantes para o fortalecimento das competências socioemocionais, o aprendizado, e para o controle adequado dos impulsos. Convivendo com os avós, as crianças têm oportunidade de desenvolver e fortalecer vínculos afetivos positivos, bem como vivenciar valores como: bondade, honestidade, esperança e alegria em fazer bem feito.

Conviver e brincar juntos contribuem para que as crianças descubram a si mesmas e ao mundo, além de propiciar o surgimento de habilidades e competências fundamentais, e desenvolver áreas do cérebro responsáveis pelo sentimento de empatia, tão importante

em um mundo cada vez mais diversificado. Mas como avós e idosos são entendidos em outras culturas? Quais papéis poderiam ser atribuídos a eles/as? Quais seriam as contribuições desse grupo à sociedade a partir da memória, dos contos e da tradição oral? O que eles pensam sobre as brincadeiras e a infância na atualidade? De que forma poderiam contribuir para potencializar o brincar nas grandes cidades? São as perguntas que direcionam as discussões apresentadas neste capítulo, e que serão apresentadas a seguir.

Avós, memória viva, contos e tradição No que diz respeito a valorizar os idosos, temos muito

a aprender com culturas cuja tradição oral ainda influencia fortemente a formação humana, como: etnias indígenas brasileiras e povos africanos.

Para o tradicionalista Amadou AmpâtéBâ, os velhos são a memória viva da África. Lá, tudo é “história”. Além disso, um homem idoso encontra sempre outro mais velho ou mais sábio do que ele, a quem pode solicitar uma informação, opinião, aprendizado. Então, “Todos os dias, o ouvido ouve aquilo que ainda não ouviu”. O grande escritor indígena Daniel unduruku (MEDEIROS; MORAES, 2016) apresenta a figura de seu avô de forma marcante e afetuosa em alguns de seus livros e constata que em sua cultura é como se gente jovem não soubesse contar histórias: “Gente jovem sabe pescar, caçar, subir em árvore, nadar no rio, fazer filho, cuidar da roça. Os pais, que são geralmente jovens, educam o corpo das crianças. Quem educa a alma das crianças são os velhos, os avós. E o velho não nega a sua função. Ele não quer ser outra coisa a não ser velho”. Em inúmeras culturas orais, tanto indígenas quanto africanas, as histórias são narradas no presente. É como se o narrador fizesse vivo os seus antigos feitos ou feitos de seus antepassados. Mas essa valorização da palavra dos mais experientes em vida também acontece em outras culturas. No livro A Revolução dos Idosos, Frank Schirrmacher (2005) relembra registros do sociólogo Austin Lymanque, em visita ao povo Navajo (indígenas norte-americanos); documenta que eles suportam a velhice intactamente ao contarem uns aos outros suas glórias passadas, por menores que fossem, por exemplo, ao vigiarem as suas ovelhas em condições das mais adversas.

Já a escritora Luzia de Maria (2016) alerta para o perigo não só do sedentarismo físico, mas do sedentarismo intelectual, apontado como catalisador de doenças degenerativas do cérebro como mal de Alzheimer e demências diversas. Este sedentarismo pode ser combatido realizando atividades prazerosas com os netos como brincar, contar e ler histórias, rememorar fatos e brincadeiras da própria infância. A autora salienta também sobre o dilema da solidão, fator de sofrimento na velhice. Todavia, quem lê e compartilha histórias, tem maior capacidade de escuta do outro, desenvolve a empatia, passa a ter o que dizer. Logo, não se sente sozinho (já que está sempre na companhia de maravilhosos personagens) e quando tem pessoas ao seu redor, sabe conversar, ouvir, entreter e, portanto, é mais bem aceito socialmente. Quem teve o contato afetivo com os avós dá valor aos idosos. Ao valorizarmos os mais velhos, sua experiência de vida, estamos abrindo um caminho bem aventurado para ser quem somos, bem como, para nossos filhos e netos serem quem escolherem ser. Mas do ponto de vista do idoso, como ele enxerga o brincar no contexto de uma grande metrópole como São Paulo?


Brincar multigeracional