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Os desafios da desmedicalização da vida

- Mônica Takei Hasimoto -


Ao longo do curso formativo de Agentes do Brincar, muitos pensamentos foram surgindo que se entrelaçam com a minha prática profissional na saúde mental infanto juvenil. Percebi muitas questões referentes a banalização do brincar, diante de um “transtorno mental” e o quanto o diagnóstico médico atravessa as esferas da vida. Desse modo, esbarrei no termo “medicalização” e na reflexão sobre o brincar e a criança em sofrimento mental.

O termo medicalização, de acordo com o Fórum sobre Medicalização da Educação e da Sociedade:

Entendemos por medicalização o processo em que as questões da vida social, sempre complexas, multifatoriais e marcadas pela cultura e pelo tempo histórico, são reduzidas à lógica médica, vinculando aquilo que não está adequado às normas sociais a uma suposta causalidade orgânica, expressa no adoecimento do indivíduo.



Assim, questões como os comportamentos não aceitos socialmente, as performances escolares que não atingem as metas das instituições, as conquistas desenvolvimentais que não ocorrem no período

estipulado, são retiradas de seus contextos, isolados dos determinantes sociais, políticos, históricos e relacionais, passando a ser compreendidos apenas como uma doença, que deve ser tratada.

Assim, a medicalização da vida é um conceito mais amplo e complexo do que somente o aumento do uso de medicamentos. É um conceito que determina uma única lente (médica-biológica) para discutir as questões humanas.


Em saúde mental, existe um histórico de uma extensão do que é pensado para os adultos para as crianças e adolescentes, sem levar em consideração as particularidades e peculiaridades das outras fases da vida (Guarido, 2007). A medicalização dos cuidados do adulto não é diferente, está presente principalmente na nomeação de comportamentos, na negação da “desobediência” e no julgamento

moral da subversão da criança, na naturalização do sofrimento e na culpabilização individual. Todos os “fazeres” fora do padrão, são definidos como diagnósticos médicos, com tratamentos e prescrição de medicamentos.

Desse modo, a criança acaba direcionada por diversos “tipos” de terapia, uma enxurrada de atividades direcionadas e um cotidiano guiado demais, sem espaço para o seu desenvolvimento potente e livre. O brincar se enrijece e dá lugar a itens de estimulação específicos, a ambientes seguros e cheios de cuidados. É importante destacar que a criança em sofrimento pode transparecer suas questões no brincar, a falta de brincar ou mudanças no seu fazer cotidiano. Entretanto, o recorte proposto nesta discussão é a criança e a medicalização do brincar. Ao longo da minha prática profissional com crianças e suas famílias, pude coletar em minha memória angústias, dúvidas e reflexões:

“Ele só fica balançando os braços e pulando, não brinca porque ele tem problema né”, “Não deixo ele ir ao parquinho, ele vai comer alguma coisa da areia!”, “Ela faz várias terapias e atividades durante a

semana e em casa nós também damos vários exercícios para ela fazer”, “deixamos ela brincando separado das outras crianças da sala da escola”, “Ele não para quieto, não se concentra, não brinca de nada”.

Estes são depoimentos comuns entre pais, familiares e instituições sobre crianças em tratamento de saúde mental. Percebo que a ânsia por definir a singularidade dos sujeitos se encaixa com os diagnósticos médicos na infância que vão criando fendas nos territórios do sujeito. Guarido (2007) argumenta que a medicalização das crianças nos tempos atuais pode ser lida também como um silenciamento dos conflitos, vetando-os como inerentes à subjetividade e ao encontro humano. Azevedo (2018) se alinha com esse pensamento e argumenta que a medicalização se torna cada vez mais um mecanismo que tampona a diversidade.


O olhar sob as crianças envolve cuidados médicos e pedagógicos, mas não se restringe a eles (Azevedo, 2018). Ao invés de uma resposta única, como

ampliar o território do brincar e dar lugar para as singularidades? Talvez, ao invés de nos ancoramos em respostas, podemos olhar para as perguntas, para o que provoca… A criança fica pulando? Ela pula quando está feliz ou quando parece triste/incomodada? Vamos brincar com o pular? Ele não se concentra? Mas em que momentos fica mais difícil? Quais tipos de atividades percebemos maior concentração? É importante considerar que a discussão sendo em um país extremamente desigual como o Brasil, não é possível falar sobre o tema sem trazer a luz a desigualdade e o desafio de não nos orientarmos pela concepção burguesa de criança que não corresponde com a realidade (Neto, 2019).



Neto (2019) ressalta que é preciso estar atenta a discussão da criança e da infância romantizadas e provocar politização, historicização e crítica dos processos (desigualdades, racismo, machismo, meritocracia, etc). Só assim, o brincar é convocado a fazer parte das ações desmedicalizantes. Lembrar sempre que o brincar nunca está descolado do ambiente e da sociedade que é pelo brincar que

acontece a aprendizagem social.

Apresenta-se aqui, uma luta constante contra formas hegemônicas de se debruçar nas discussões sobre o brincar, a criança e os processos sociais. É importante destacar que existem limites e nada é a salvação da luta contra a desmedicalização (Neto, 2019). Reconhecer a pluralidade e a complexidade das questões humanas é o primeiro passo para encarar os desafios.

Precisamos tensionar a lógica vigente e multifacetar as nossas perguntas e as nossas respostas (Neto, 2019). O desafio está na construção de alternativas desmedicalizantes inseridas em processos coletivos. Como no Conto da Ilha Desconhecida de Saramago (1998), a jornada nos fortalece e pelo caminho trilhado aprendemos a navegar. Muitas vezes encontraremos o absurdo, pessoas que não concordam com a rota traçada, as boas parcerias, as tempestades, terras firmes um tanto quanto questionáveis, mares azuis que se confundem com o céu e tantas outras maravilhas e intempéries.

Acredito que a desmedicalização da vida é isso. A luta pelos direitos (de brincar e todos os outros) acontece no coletivo e que também reverbera em cada um.


Estamos todos navegando, cada um em sua ilha desconhecida, encontrando outras terras e cartografando nossos brincares, afetividades, memórias... A jornada pela procura de nós mesmos e pelo desconhecido e misterioso que é a troca e a história do outro. Não importa se nos referimos à complexidade com que Saramago (1998) escreve sobre o ser humano ou ao velho ditado (estamos todos no mesmo barco), o barco navegará.


Finalizo aqui um texto um tanto quanto confuso de ideias, reflexões e indagações. São muitos questionamentos que o curso provoca, mas entendo que tentar traduzir esses processos em palavras é um exercício importante. Percebo essa importância quando presenciamos a diluição das palavras nas práticas enrijecidas do cotidiano. Este é um poema que acolheu muito a minha equipe no trabalho e gostaria de compartilhar.


A menina ri

a gente ri junto

Ela chora

e a gente não

Ela pede remédio

a gente não dá

A menina pede palavras

a gente oferece

A menina ameaça

a gente se cala

A menina diz que não nos

quer mais

E a gente diz que continua

querendo ela.


(Autor: anônimo, poema apresentado no Fórum Internacional de novas práticas em

saúde mental infantojuvenil 2019)



Referências Bibliográficas

AZEVEDO, Luciana Jaramillo Caruso de. Medicalização das infâncias: entre os

cuidados e os medicamentos. Psicol. USP [online]. vol.29, n.3, pp.451-458, 2018.

FÓRUM sobre a medicalização da educação e da sociedade. [on-line] in:

http://medicalizacao.org.br/

GUARIDO, Renata. A medicalização do sofrimento psíquico: considerações sobre o

discurso psiquiátrico e seus efeitos na Educação. Educação e Pesquisa, São Paulo,

v.33, n.1, p. 151-161, jan./abr. 2007.

NETO, Hélio da Silva Messeder. VAMOS BRINCAR DE (DES)MEDICALIZAÇÃO?

Revista Práxis Educacional, Vitória da Conquista–Bahia –Brasil, v. 15, n. 36, p.

224-244, 2019.

SARAMAGO, José. O conto da ilha desconhecida. – São Paulo: Companhia das

Letras, 1998.

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