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Razões para brincar

- Márcia de Oliveira Gomes Gil* -


Feche os olhos por um momento e imagine que você está cercado de crianças. Pode ser uma festa, um encontro, um parque ou até mesmo uma reunião familiar. O que você ouve? O que você vê? Possivelmente suas respostas incluem sons e ações que remetem a brincadeiras e situações lúdicas.



A relação que fazemos entre as crianças e a brincadeira é direta, fruto das nossas experiências enquanto crianças e das experiências que temos com outras.Mas será que as crianças de hoje brincam da mesma forma que nós brincamos? Será que têm o mesmo tempo que tínhamos para brincar?


*Psicóloga, Mestre e Doutora em Educação pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Pesquisadora de políticas públicas educacionais para a primeira infância. Coordenadora da Pós-Graduação em Docência na Educação Infantil da Universidade Castelo Branco. Membro do Comitê de Saúde Escolar da Sociedade de Pediatria do Estado do Rio de Janeiro


A brincadeira acompanha as modificações históricas e sociais, sofrendo alterações na forma e no conteúdo daquilo que é brincado, assim como no tempo que é reservado para que essas brincadeiras aconteçam. Este é o tema central dessa discussão que aqui se inicia.

Há muitos anos existe o reconhecimento por parte de filósofos, psicólogos, sociólogos e educadores de que as brincadeiras são importantes para a formação e constituição psicológica do ser humano.

A Psicologia, ciência pioneira no estudo da infância, estruturou, ao longo dos tempos, conhecimentos relacionados com diversas facetas do desenvolvimento infantil, particularmente as relativas ao brincar.


Mesmo considerando as diferenças epistemológicas entre os vários pesquisadores que investigaram esse tema no campo psicológico, a maioria chegou a conclusões positivas sobre o valor da dimensão simbólica e lúdica das brincadeiras e elementos fundamentais para a socialização, aprendizagem e desenvolvimento do ser humano. Por isso, as funções do brincar devem ser valorizadas em todos os níveis da vida.

Podemos elencar alguns benefícios da brincadeira na visão de alguns dos principais teóricos do desenvolvimento humano.

Para Jean Piaget (1) brincar é desenvolvimento e aprendizagem. É a partir da ação que a criança desenvolve sobre o meio físico e social, e que se constroem as estruturas de pensamento. Assim sendo, diante de um conflito ou uma novidade, ela busca novas estratégias para compreender os problemas que surgem, reorganizando, do mesmo modo, suas estruturas de pensamento e possibilitando outras mais complexas. A brincadeira evolui numa tendência que segue o trajeto dos jogos de exercício (construções), jogos simbólicos (faz de conta, desenhos, imitações etc.) e jogos com regras explícitas (por exemplo, amarelinha, bola de gude, xadrez etc.). A criança, ao brincar, procurando representar a realidade em que vive, depara-se com situações problemáticas que tenta resolver.



Para Vygotsky (2) o brincar atende às necessidades da criança. Na brincadeira a criança sempre age como se ela fosse maior do que é na realidade, aproximando-se, assim, de seu potencial. Vygotsky enfatiza que, ao brincar, a criança entra em contato com regras - tanto aquelas que repete do mundo adulto como as que constrói para dar sentido à brincadeira. Dessa forma, nas interações sociais dos momentos de brincadeira há diferentes possibilidades de desenvolvimento.

Para teóricos da Psicanálise, como Melaine Klein(3) as representações simbólicas possibilitam elaborações afetivas. A simbolização autoriza à criança transferir não apenas interesses mas também fantasias, ansiedades e culpa a outros objetos, além de pessoas. Essa projeção da atividade psíquica na brincadeira permitiria a qualquer adulto ter acesso a esse mundo interior das crianças. Nessa perspectiva, a criança, ao brincar, estará representando e reelaborando seus medos, suas angústias, suas ansiedades e seus desejos. Embora o preenchimento das necessidades, estudado por Vygotsky(2) a ideia de elaboração afetiva, destacada por Melanie Klein(3 e os princípios interativos, descritos por Piaget,1 sejam necessários e fundamentais para se compreender o brincar, eles são insuficientes. É preciso também considerar elementos próprios do campo sociocultural.4


O brincar gira em torno da cultura lúdica, que é, antes de tudo, um conjunto de procedimentos que tornam a brincadeira possível, com a incorporação de aspectos da cultura em que a criança vive. A criança, o adolescente ou o adulto, ao representar uma situação, necessariamente o faz(em) partindo das relações sentidas ou vivenciadas no ambiente e na cultura. O brincar de uma criança no Brasil é, portanto, diferente do brincar de uma criança em qualquer outro país, o que nos permite entender que há raízes sociais e culturais nas diferentes formas do brincar. Dessa forma, assimilam nas construções simbólicas as regras e os papéis sociais com os quais convivem.