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Relações de Gênero no Universo do Brincar

- Hellen Tavares Peixoto -


O presente artigo tem como intuito apresentar reflexões sobre as temáticas que se refere às questões de gênero no âmbito do brincar. As crianças são produtoras de culturas infantis e é por meio do brincar que elas estabelecem suas conexões com o mundo. Compreender como essas relações entre meninas e meninos são construídas durante as brincadeiras são fundamentais para entender como os significados de gêneros são impressos em seus corpos desde muito cedo. Isso faz com que essas crianças desenvolvam comportamentos que correspondem a características desejáveis pelo meio sociais, gerando assim, um processo de feminilização e masculinização precoce.

A brincadeira é algo que está presente no cotidiano das crianças. É por meio dela que meninos e meninas apresentam suas formas de compreensão sobre o mundo. A produção da cultura infantil se dá diariamente em espaços que as crianças se sintam inspiradas para criar. Entretanto, vivemos em uma sociedade, na qual se estabelecem antes mesmo do nascimento, atribuições para o sexo feminino e masculino. Segundo Daniela Finco (2003), as relações de gênero podem ser entendidas como:

Construção social que uma dada cultura estabelece ou elege em relação a homens e mulheres. O conceito de gênero implica conhecer, saber mais sobre as diferenças sexuais e seus significados. Compreender como são produzidas, pelas culturas e sociedades, as diferenças nas relações entre homens e mulheres. Portanto, como nos diz Scott (1995), gênero pode ser entendido como a organização social da diferença sexual. (FINCO, 2003).

Meninos e meninas deveriam ser livres para brincar com que quiserem, pois só assim, teriam a possibilidade de vivenciar outras experiências e a oportunidade de desenvolver um olhar mais empático em relação ao outro. Contudo, instituições sociais, como a escola e a família, ainda são os principais meios que ressaltam quais devem ser os comportamentos específicos para cada sexo. Esse tipo de mentalidade acaba impedindo, muitas vezes inconscientemente, que as crianças explorem outros brinquedos e brincadeiras que não se enquadre no padrão definido para cada gênero.

Permitir que as crianças brinquem apenas com o que é apresentado como “adequado para cada sexo”, contribui para a manutenção de uma sociedade preconceituosa e não igualitária. Meninos e meninas perdem a oportunidade de adquirir novos conhecimentos e habilidades, que são fundamentais na construção do seu próprio Eu. As crianças quando brincam nos mostram muito a respeito de quem são e como são tratadas. É importante estar presente nesses momentos, participar e estar junto. Esses períodos são significativos não apenas para conhecer a criança, mas para que ela possa perceber que é valorizada e que aquele espaço é livre para ela ser o que quiser.

A divisão entre os gêneros fica muito clara no cotidiano escolar. A hora do recreio é um bom momento para observar essa separação entre ambos os sexos que é, em geral, muito sutil. Enquanto as meninas, geralmente, gostam de pular corda, brincadeira que é conduzida muitas vezes ao som de cantigas carregadas de simbologias e significados machistas, os meninos frequentemente estão empenhados com brincadeiras que possibilitam se expressar corporalmente, ou seja, brincadeiras que permitem correr, gritar ou interagir em grandes grupos de outros meninos, como por exemplo, jogar futebol ou queimada.

É importante ressaltar, que existem as exceções e que de acordo com Finco (2003), ainda hoje é muito frequente nos depararmos com situações em que crianças que, ao demonstrarem comportamentos não "apropriados" para seu sexo, causem preocupação e sejam motivo de incômodo e dúvidas para seus familiares, profissionais da saúde e da educação.

[...] A criança transgressora desafia as normas pressupostas e coloca-se em discussão. Mostra, por suas ações, que masculinidade e feminilidade são construções sociais que também acontecem na Emei, que já chegou a separar meninos e meninas, com atividades distintas, contribuindo para fabricar sujeitos desiguais. (Vianna e Finco, 2009).

Claudia Vianna e Daniela Finco (2009) expõem que o peso do caráter biológico na construção das diferenças implica diretamente no papel cultural em que cada sexo é posto ao longo do processo de socialização, sobretudo na infância, sendo ressaltadas diariamente as características tidas como naturais atribuídas para o que é feminino e masculino. Esses diversos esforços para notar essas tais distinções, como comportamento e habilidades, são na verdade formas socioculturais de controle do corpo infantil, que são passadas a adiante em muitos casos de maneiras sutis e imperceptíveis.

Essas práticas disciplinares que os corpos sofrem ao longo do tempo e as marcas que são deixadas pelos mecanismos que tentam adestrar quem não corresponde o que se é imposto, não são oriundas das características do corpo biológico, mas sim, das construções sociais. Posto assim é possível que refletir que o fim das desigualdades entre os gêneros só ocorreria com a compreensão de que sua produção tem embasamento social e não biológico.

As crianças são produtoras de culturas infantis e é por meio do brincar que elas estabelecem suas conexões com o mundo. Através de suas pesquisas em escolas do ensino infantil, Finco (2003) relata que em geral as crianças buscavam um companheiro para brincar e vivenciar momentos agradáveis, não importando ser menino ou menina. Para a autora, as crianças da Educação Infantil ainda não possuem o sexismo da forma como está presente na cultura dos adultos. Ou seja, é ao longo dos anos que permanecem na escola que as crianças vão aprendendo a oposição e a hierarquia dos sexos.